Flávio viajou no mesmo jatinho de Vorcaro usado por Moraes, diz revista

Flávio Bolsonaro (PL) teria usado o mesmo jatinho utilizado por Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci - Foto: Ton Molina/Agência Senado Reprodução/Redes Sociais
Senador viajou da Flórida a Brasília em aeronave ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, o mesmo jato usado por Alexandre de Moraes
O senador Flávio Bolsonaro viajou em janeiro de 2025 em uma aeronave que tinha entre os proprietários o banqueiro Daniel Vorcaro. Ele estava retornando da Flórida para Brasília após uma viagem em família. Trata-se do mesmo jato executivo, de prefixo PP-NLR, que transportou o ministro do STF Alexandre de Moraes em agosto do mesmo ano, conforme revelou o jornal O Globo.
A apuração da revista piauí identificou que a empresa Prime You, da qual Vorcaro era sócio, já detinha um terço das cotas da aeronave na data do voo, após aquisição realizada no fim de 2024.
A viagem de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, foi feita em família, com a mulher, a cirurgiã-dentista Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e as duas filhas do casal. Entre os passageiros estava também Willer Tomaz, advogado e empresário que já foi preso no escândalo da JBS e é investigado no esquema de desvios bilionários do INSS.
Tomaz confirmou à piauí que era dono de uma das três cotas do avião. Além de detentora de outra das cotas, a Prime You também operava o jato por meio da Prime Aviation Táxi Aéreo e Serviços, empresa integrante de seu portfólio.
Segundo informações da própria empresa, a Prime You teve Vorcaro como sócio de 2021 até setembro de 2025. Um relatório da Polícia Federal aponta que cada uma das cotas de 33,33% valia US$ 5,5 milhões em maio de 2025, período em que a empresa negociava a transferência da participação para o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes. A transação acabou não se concretizando.
O jornal O Globo foi o veículo que revelou, na semana passada, que a Polícia Federal encontrou registros de que Flávio Bolsonaro e Tomaz viajaram juntos de Fort Lauderdale para Brasília em 19 de janeiro de 2025, véspera da posse de Donald Trump.
A piauí identificou que o avião em questão é o Legacy 650 de prefixo PP-NLR, ao cruzar registros históricos de tráfego aéreo, uma planilha de movimentos aeroportuários e informações do Registro Aeronáutico Brasileiro. Parte desses dados estava disponível na CPI do Crime Organizado.
Os registros históricos no site ADBS-Exchange mostram que, naquela data, o PP-NLR decolou do Aeroporto Internacional de Fort Lauderdale-Hollywood, atravessou o Caribe e o Norte da América do Sul e pousou em Brasília, com data, origem e destino coincidindo com o voo identificado pela PF.
A proprietária formal do PP-NLR era a Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., sociedade que concentrava a propriedade compartilhada do jato, dividida em três participações: a de Willer Tomaz, por meio da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal; a de Laércio Cosentino, fundador da TOTVS; e a terceira, que pertenceu a Gabriel Szlezynger Lacerda e foi vendida à Prime de Daniel Vorcaro "no fim de 2024".
A informação foi confirmada por Lacerda à piauí, que acrescentou não conhecer Vorcaro e que toda a negociação foi feita diretamente com a Prime.
A Fraction 024 também mantinha uma relação financeira direta com o Banco Master. Em uma comunicação ao Coaf, o Bradesco registrou que, entre setembro de 2024 e setembro de 2025, a empresa transferiu R$ 7,6 milhões ao banco de Vorcaro em 36 operações, além de outros R$ 6,5 milhões em pagamentos à Prime Aviation no mesmo período.
Além de Vorcaro, a Prime You tinha como sócio Maurício Quadrado, dono da Planner, grande corretora paulistana que também é alvo da Polícia Federal na Operação Compliance Zero.
Por meio do fundo Sharks FIP Multiestratégia, administrado pela Trustee, Quadrado era cotista de outro bem do qual Tomaz também tinha cotas: uma mansão em Angra dos Reis onde Flávio Bolsonaro comemorou o aniversário da filha em fevereiro de 2026.
Durante a passagem pela Flórida, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz estiveram no Hard Rock Hotel & Casino, onde, segundo a coluna de Lauro Jardim, do Globo, passaram a noite de 18 para 19 de janeiro antes de retornarem ao Brasil.
"Lá, Willer retirou 236 mil dólares em dinheiro vivo", escreveu o colunista. Ao comentar a notícia, Tomaz afirmou que ficou hospedado no hotel por oito dias, mas negou a jogatina.
Essa foi uma dentre várias viagens que Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz fizeram juntos, incluindo um safári na África do Sul dois meses depois, em março de 2025.
A proximidade entre os dois se estende ainda aos imóveis do advogado. Em agosto, como revelou a piauí, Flávio Bolsonaro usou durante a campanha em São Paulo um apartamento que a empresa de Tomaz havia comprado em fevereiro de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, com deságio de R$ 2 milhões.
Procurado pela piauí, Tomaz enviou nota por meio de sua assessoria de imprensa confirmando que detinha um terço das cotas da sociedade proprietária do avião por meio de empresa de sua titularidade, e que a Prime You cuidava da gestão do jatinho e de sua escala de utilização.
Afirmou ainda que apenas em abril de 2026 descobriu que Daniel Vorcaro "teria igualmente adquirido cota da aeronave" e que, ao tomar conhecimento disso, "denunciou o contrato, encontrando-se, desde então, em litígio" com a Prime You.
A nota acrescenta: "Willer Tomaz não conhece Daniel Vorcaro, jamais esteve com ele e nunca celebrou com ele qualquer negócio, de qualquer natureza."
Sobre o voo, a nota diz que o advogado oferecia "carona" a amigos quando havia assentos disponíveis, "sem qualquer custo, contrapartida ou benefício de parte a parte". Tomaz não respondeu se Flávio Bolsonaro e sua família foram seus convidados naquele voo.
O senador Flávio Bolsonaro e a defesa de Daniel Vorcaro não responderam aos pedidos de entrevista e às questões enviadas pela reportagem.
Após a divulgação do vídeo de Moraes e Viviane desembarcando do PP-NLR, Flávio Bolsonaro atacou o ministro nas redes sociais: "Alexandre de Moraes é o principal responsável por Lula voltar à cena do crime. Ele sentou na cadeira, aparelhou o Estado inteiro e a sua máfia, implodiu a democracia sob o falso pretexto de protegê-la."
A viagem à Flórida ocorreu em meio à aproximação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro para financiar Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro.
O cronograma do financiamento de US$ 24 milhões previa o pagamento de US$ 2 milhões em 20 de janeiro de 2025 e outros US$ 2 milhões cinco dias depois.
No dia seguinte ao desembarque em Brasília, o senador escreveu a Thiago Miranda, intermediário das negociações com o banqueiro, pedindo que desse "um gás na resposta do jurídico do investidor".
Miranda levou a cobrança a Vorcaro: "Cara, hoje é a data-limite daquele primeiro aporte do filme. Preciso acelerar."
O dinheiro não saiu naquele dia. Vorcaro passou a pressionar seu cunhado Fabiano Zettel, encarregado de viabilizar os repasses. Em 28 de janeiro, insistiu na prioridade do financiamento e voltou a cobrar três dias depois. Zettel alegava dificuldades para liberar a operação.
A primeira parcela só foi transferida em 13 de fevereiro, 24 dias após a data prevista. O comprovante, enviado por Zettel a Vorcaro no dia seguinte, registra uma remessa de US$ 2 milhões da Entre Investimentos e Participações para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.
Eduardo Bolsonaro passou a viver nos Estados Unidos em fevereiro de 2025, mesmo mês em que o fundo Havengate recebeu a primeira parcela do financiamento de Vorcaro. Em 20 de março, formalizou sua licença da Câmara.
Quatro dias depois, o fundo recebeu a segunda e a terceira parcelas, que somavam cerca de US$ 3,7 milhões.
A Polícia Federal investiga o caminho desse dinheiro, que saía da Entre Investimentos e Participações, empresa de Antonio Freixo Junior, conhecido como Mineiro, e era enviado ao Havengate, no Texas, antes de seguir para a produtora de Dark Horse.
Uma das questões sob investigação é se todo o dinheiro foi destinado ao filme ou se parte permaneceu no fundo ou beneficiou Eduardo.
As mensagens mostram que Eduardo Bolsonaro participava das discussões sobre como fazer os recursos chegarem aos Estados Unidos. Em uma conversa encaminhada por Thiago Miranda a Vorcaro em 21 de março, o então deputado defendeu que o dinheiro já estivesse em território americano.
"O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo", escreveu.
Eduardo demonstrou ainda preocupação com a capacidade da empresa brasileira de fazer as remessas e propôs: "Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?"
Também pediu notícias de uma reunião e colocou Altieris Santana, sócio de Paulo Calixto, administrador do Havengate, à disposição: "Inclusive voa para fazer reunião pessoal com quem quer que seja."
Em acordo de colaboração premiada recentemente homologado, Antonio Freixo, o Mineiro, confirmou os pagamentos ao fundo Havengate de US$ 12,3 milhões.
Além disso, relatou às autoridades que fez saques e entregou malas de dinheiro a pedido de Vorcaro. Ainda não se sabe quem recebeu os valores em espécie nem se essas entregas tinham relação com o financiamento solicitado por Flávio Bolsonaro.