Flávio Bolsonaro mira bancada pró-impeachment do STF no Senado

Sessão plenária do Supremo Tribunal Federal (STF) © Gustavo Moreno/STF
Metade dos 48 candidatos apoiados por Flávio Bolsonaro ao Senado lidera pesquisas com pauta de impeachment de ministros do STF
Dos 48 candidatos apoiados por Flávio Bolsonaro (PL) ao Senado, 24 aparecem à frente nas pesquisas de intenção de voto para ocupar uma cadeira a partir de 2027, segundo levantamento do UOL. Os dados apontam para o avanço principalmente de nomes do PL, com 16 representantes da legenda, seguidos por figuras do Centrão, como o União Brasil e o PP. Para o balanço, foram considerados os dois candidatos numericamente à frente em cada estado — já que são duas vagas abertas por unidade federativa — e aqueles empatados nas pesquisas Quaest divulgadas entre os dias 22 e 29 de setembro. O instituto não realizou medições junto a eleitores do Piauí, e, nesse caso, foi considerado o dado da Atlas/Intel divulgado na terça-feira (29). Na reta final da corrida eleitoral, os eleitores ainda demonstram alto grau de indecisão na disputa ao Senado. Em São Paulo, por exemplo, o índice daqueles que não sabem citar nenhum candidato chega a 75%. Os dados, portanto, refletem a fotografia de momento auferida nas pesquisas.
Além da própria eleição, Flávio Bolsonaro colocou como prioridade neste ano formar uma bancada robusta de senadores e pressionar ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) com a possibilidade de avanço de processos de impeachment. "Em qualquer lugar que você vai na rua as pessoas querem saber dos candidatos ao Senado que estão com a gente e se são contra ou a favor o impeachment de ministro do Supremo. Obviamente, descumpriu a lei, a lei tem que valer para todo mundo", disse durante live na semana passada. Os nomes apoiados por Flávio Bolsonaro oscilam quanto ao grau de adesão a um processo de impeachment. O deputado Marcel Van Hatten (Novo-RS), por exemplo, é um franco defensor da medida, enquanto Marina Candia (PSDB), esposa do ex-prefeito de Maceió JHC (João Henrique Caldas), que dá seus primeiros passos na política e lidera as pesquisas, não levou o tema para a campanha em Alagoas.
Para a cassação dos magistrados, algo inédito no país, é necessário o voto de pelo menos 54 dos 81 senadores. Nas eleições deste ano estão em disputa dois terços da composição da Casa Alta, ou seja, 54 cadeiras. Dos 27 senadores que estão na metade do mandato, 17 já deram declarações públicas em favor do avanço do impeachment. Somando esse número com os nomes apoiados por Flávio Bolsonaro que se mostram competitivos no pleito deste ano, ainda não haveria votos suficientes para a cassação de ministros.
O assunto, antes mais restrito à direita, ganhou corpo nas eleições deste ano em meio à crise no STF provocada pelas investigações do Banco Master e arrastou para o debate nomes de centro e de esquerda. Apoiado por Flávio Bolsonaro, o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) mantém uma boa relação com ministros do Supremo. Em entrevista recente a um veículo local, porém, ele não excluiu a possibilidade de cassação. "Nós temos medidas mínimas e medidas máximas. Se o caso necessitar que a medida máxima seja o impeachment de ministros, ela vai acontecer naturalmente. Não há quem fique na frente de situações inevitáveis", disse, defendendo também uma reforma do Judiciário. No palanque do PT no Ceará, o senador e líder nas pesquisas Cid Gomes (PSB) defendeu a "refundação" da Corte e disse que, se não houver mudanças internas, vai avalizar o impeachment de ministros.
Na mesma linha, o senador Humberto Costa (PT-PE) disse em debate que a esquerda "não passa pano para ninguém" e que, se for comprovado o cometimento de crime por parte de ministros, "pode contar com o meu voto". Na avaliação do cientista político Carlos Pereira, professor na FGV (Fundação Getulio Vargas), o Supremo virou um "cabo eleitoral negativo" e, por isso, é natural que os candidatos, incluindo os de esquerda, não fiquem impassíveis diante das denúncias envolvendo os ministros. Ele pondera, porém, que existe uma diferença grande entre a retórica e ações concretas no Legislativo. "Eu não cravaria que o resultado eleitoral vai colocar o Supremo indevidamente em situação delicada. Eu creio muito mais num mecanismo interno, em que os próprios ministros da Suprema Corte vão ter que se posicionar sobre isso. Então, se houver punições, elas provavelmente virão do STF, e não do mundo político", afirma Pereira.