STF: 44 despachos em 20 dias expõem disputa interna e racha entre ministros

Sessão de julgamento no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) Foto Fellipe SampaioSTF
Desde 1º de setembro, ministros do STF protagonizaram 44 movimentações em torno de sigilos, investigações e condução de processos
Desde 1º de setembro, quando o ministro André Mendonça decidiu retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) com mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) protagonizaram uma sequência de 44 despachos ou ofícios relacionados ao caso.
Um levantamento realizado pela CNN aponta que a maior parte das movimentações partiu do presidente da Corte, ministro Edson Fachin, e de Mendonça, em meio à disputa sobre o acesso às investigações, os sigilos e a condução dos processos. Fachin foi responsável por 12 das 44 movimentações. Mendonça fez nove, seguido por Moraes, com oito. Flávio Dino teve seis movimentações, Gilmar Mendes, cinco, Cristiano Zanin, três, e Luiz Fux, uma.
A sequência começou em 1º de setembro, quando Mendonça pediu manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre as mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes e retirou o sigilo das conversas.
A decisão provocou uma reação imediata de Moraes, que, no inquérito das fake news, pediu que Mendonça fosse investigado por suposta improbidade, alegando que o colega teria direcionado investigações e protegido aliados.
A partir disso, ministros aliados a Moraes passaram a sustentar publicamente que Mendonça estaria "escondendo" informações comprometedoras sobre colegas dos quais era próximo.
A disputa entre despachos e ofícios passou a se concentrar no acesso ao conteúdo das investigações sobre o Banco Master e na retirada dos sigilos dos processos.
Depois de pedidos de ministros e determinações de Fachin, Mendonça retirou o sigilo de pelo menos 38 processos relacionados ao caso Master.
A ala pró-Moraes voltou a cobrar novos levantamentos, sob a alegação de que ainda havia documentos importantes sob sigilo. Fachin também pediu a publicidade de outras petições, incluindo documentos que continham Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) relacionados a Vorcaro.
A atuação de Fachin começou de maneira mais discreta, com pedidos de manifestação e esclarecimentos aos ministros envolvidos. Com o avanço da crise, porém, o presidente do STF passou a ter um papel mais central nos desdobramentos.
O afastamento e a posterior recondução do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, foi um dos episódios que ampliaram a atuação de Fachin.
Depois que Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei e Flávio Dino derrubou a decisão, em um movimento inédito, Fachin assumiu a condução da crise.
No mesmo dia da decisão de Dino, Fachin retirou Moraes da relatoria do inquérito das fake news e Mendonça do comando do processo que questionava as mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro.
Fachin também marcou para 15 de setembro o julgamento que analisaria se as mensagens justificariam a abertura de uma investigação contra Moraes. Dias depois, agendou para 23 de setembro a análise da conduta de Mendonça.
Com a aproximação do julgamento sobre Moraes, surgiu uma nova disputa envolvendo o acesso ao celular de Daniel Vorcaro.
Cristiano Zanin pediu acesso ao aparelho e reiterou a solicitação posteriormente. Moraes e Gilmar Mendes também solicitaram os dados.
Mendonça informou que o celular estava com a Polícia Federal e que uma cópia dos dados permanecia lacrada em seu gabinete, sem possibilidade de entrega naquele momento.
Zanin chegou a pedir diretamente à PF os dados do aparelho. Gilmar e Moraes fizeram o mesmo, e o material foi entregue um dia antes do julgamento. Depois da sessão, Fux e Mendonça também solicitaram acesso aos dados.
No dia do julgamento sobre Moraes, a discussão também envolveu a forma como os processos deveriam ser analisados pelo STF.
Moraes havia solicitado, por meio de ofício, que as petições relacionadas a ele e a Mendonça fossem julgadas conjuntamente, mas Fachin negou o pedido.
Durante o julgamento, Dino levou a Gilmar uma questão de ordem para que os casos envolvendo os dois ministros fossem analisados em conjunto e para que Fachin fosse retirado da relatoria.
Com isso, a possível abertura de investigação contra Moraes não chegou a ser analisada. A reunião dos processos também ficou sem definição depois que Dino pediu vista, adiando a análise do tema por até 90 dias.
A sequência de decisões também envolveu episódios paralelos. Dino retirou o sigilo de parte da investigação relacionada ao filme Dark Horse e encaminhou a Fachin informações sobre possíveis conflitos de interesse de Mendonça em um caso envolvendo cemitérios em São Paulo.
Enquanto sete ministros fizeram movimentações no período e participaram da sequência de despachos e ofícios, Cármen Lúcia, Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli não se envolveram na disputa.
Os três também estiveram entre os mais discretos no julgamento que analisou a atuação de Moraes. Toffoli e Kassio declararam, respectivamente, suspeição e impedimento e não participaram da análise.
Cármen Lúcia se manifestou apenas para votar na questão de ordem, afirmando estar envergonhada com a situação e pedindo desculpas ao povo brasileiro.