Claudia Matarazzo: "Sem suavizar ou recuar''

Claudia Matarazzo: "Sem suavizar ou recuar''
A força feminina não precisa ser amenizada para ser aceita, e ocupar espaços de poder, estabelecer limites e sustentar decisões também é uma forma de resistência
Mulheres não precisam suavizar atitude para aparentar menos força. Por muito tempo, nós, mulheres, aprendemos que força demais poderia custar caro. Liderar, opinar com clareza ou ocupar espaço vinha acompanhado de alertas silenciosos: “seja firme, mas não dura”, “confiante, mas não arrogante”, “decidida, mas simpática”.
A força feminina sempre foi condicionada a ser... palatável.
Esse treinamento social ensinou gerações de mulheres a, mesmo sem perceber, suavizar sua presença. Para nós, atitudes como modular a voz, pedir licença antes de existir e justificar decisões eram praticamente tão naturais quanto respirar.
Com o movimento feminista, conseguimos conquistar espaços e direitos e, entre eles, o de falar mais alto. Sim, passamos a ser mais ouvidas. Mas sempre, e ainda, com uma certa condescendência. Com má vontade e até mesmo interrompidas com frequência, de forma desrespeitosa.
Pois é, sofremos mais para nos provar como “iguais”. E não por falta de competência, mas por excesso de cobrança. Pesquisas mostram que trabalhamos 30% a mais e ganhamos 30% menos do que os homens em cargos iguais. Um absurdo, não? Feitas as contas, temos uma defasagem de nada menos que 60% em tempo de qualidade, ganhos e carga de trabalho, considerada normal... E isso sem sequer começarmos a falar das jornadas duplas e triplas, de mulheres que trabalham em casa sem “funcionárias do lar” e criam filhos sozinhas...
Essas mulheres sofrem de um cansaço profundo por ter de performar equilíbrio o tempo todo e ainda ficar à altura de cobranças incessantes. Aí, em algumas sociedades especialmente patriarcais como o Brasil, ainda temos que lidar com o medo, pois aqui as taxas de mulheres mortas por feminicídio apontam para inacreditáveis uma a cada hora!!! Lamentavelmente, as conquistas não foram suficientes. Prova disso é que, em um incrível movimento internacional, começamos a ouvir sugestões no sentido de proibir as mulheres de votar, pois não teriam capacidade para “votar bem”, seja o que for que isso signifique.
Basta. Suavizar a força não torna ninguém mais respeitável. Esconder a competência para agradar não leva a lugar algum. Ao contrário, dilui autoridade. Já mulheres que falam com clareza, estabelecem limites e sustentam decisões não são difíceis, são inteiras. Força não precisa de adjetivos atenuantes.
Na prática, no ambiente profissional, isso se manifesta em situações comuns: mulheres interrompidas ao se posicionar, cobradas por empatia quando são objetivas, julgadas pelo tom quando homens são avaliados por conteúdo. A expectativa de suavização não é neutra; é desigual.
Assumir a própria força exige maturidade e coerência e não resulta em endurecimento ou abandono da sensibilidade. Mulheres não precisam se fragmentar para serem aceitas, ouvidas ou respeitadas. A força que se sustenta não grita, não pede licença e não se desculpa por existir.
Em tempos de revisão de lideranças e narrativas, assumir a própria potência é garantir dignidade e respeito. E, apesar do terror, da violência e do sangue banalizado diariamente nos noticiários, não podemos calar ou aceitar retrocesso. Vamos continuar a resistir, manter posição e mostrar com clareza toda nossa imensa capacidade de sobrevivência.
Sem volta. Seguiremos em frente e sempre juntas.