Belo Horizonte lidera ranking de inadimplência

© Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo
Belo Horizonte inicia 2026 como a cidade mais inadimplente do Brasil, com 65% das famílias com contas em atraso, segundo a Fecomércio
O Brasil registra níveis históricos de endividamento familiar, e Belo Horizonte se tornou o símbolo mais expressivo dessa crise. A capital mineira iniciou 2026 como a cidade mais inadimplente do país, com 65% das famílias convivendo com contas em atraso, de acordo com dados da Radiografia do Endividamento 2026, da Fecomércio. O avanço é alarmante: no fim de 2023, metade dos lares belo-horizontinos estava inadimplente. Em apenas dois anos, o índice cresceu 15 pontos percentuais. Os números vão além de uma dificuldade financeira passageira. Eles apontam para uma mudança estrutural no comportamento econômico das famílias brasileiras. Hoje, oito em cada dez famílias no país carregam algum tipo de dívida.
Em Belo Horizonte, o fenômeno se tornou ainda mais intenso e disseminado. O endividamento deixou de estar associado apenas a grandes compras ou financiamentos. Cada vez mais, as famílias entram no vermelho para cobrir despesas básicas, como alimentação, aluguel, contas domésticas e medicamentos. A inflação persistente dos alimentos, o alto custo do crédito e a perda gradual do poder de compra criaram uma combinação explosiva para o orçamento doméstico. Nos últimos anos, programas como o Desenrola Brasil, criado pelo governo federal, ajudaram milhões de brasileiros a renegociar dívidas e retornar ao mercado de crédito. A iniciativa teve mérito ao aliviar parte da inadimplência represada e permitir que muitas famílias reorganizassem suas finanças. No entanto, o crescimento acelerado do endividamento demonstra que renegociar dívidas, por si só, não resolve um problema que se tornou estrutural.
Consolida-se hoje um modelo de consumo baseado no parcelamento permanente da vida. O cartão de crédito virou extensão da renda mensal. O Pix acelerou o consumo imediato. As apostas online passaram a disputar espaço dentro do orçamento doméstico. E o crédito fácil, muitas vezes desacompanhado de educação financeira adequada, transformou a dívida em algo banalizado. O aspecto mais preocupante é que a inadimplência já começa a alterar a dinâmica econômica das cidades. Famílias endividadas consomem menos, investem menos e perdem capacidade de planejamento.
O comércio sente os reflexos, o setor de serviços desacelera e a própria economia regional perde força. Em Minas Gerais, esse cenário carrega um peso simbólico relevante. Historicamente associada à prudência financeira e ao planejamento familiar, Belo Horizonte agora lidera o ranking da inadimplência nacional. Isso revela que o problema deixou de atingir apenas grupos vulneráveis e passou a alcançar diferentes perfis de renda e consumo. Ao mesmo tempo, cresce uma sensação perigosa de normalização da dívida. Estar negativado passou a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros. E quando a exceção vira regra, o risco não é apenas financeiro — é social. O desafio dos próximos anos será maior do que renegociar boletos atrasados. O Brasil precisará discutir educação financeira, consumo consciente, acesso saudável ao crédito e mecanismos de proteção ao orçamento das famílias. Porque, no ritmo atual, o endividamento deixa de ser apenas um problema individual e passa a se consolidar como um dos principais entraves econômicos do país. *Franz Petrucelli é mestre em administração e professor da Newton Paiva Wyden*