STF se reúne com três disputas centrais e Moraes no foco

Foto: Nelson Jr./SCO/STF
STF se reúne em sessão extraordinária para decidir sobre validade de relatório da PF que envolve Alexandre de Moraes e o Banco Master
O Supremo Tribunal Federal chega à sessão extraordinária desta terça-feira (15), marcada para as 10h, diante de um impasse que vai além do conteúdo das mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O que estará em jogo é a própria forma como a Corte pode investigar um de seus ministros e quais limites devem ser observados quando a apuração é conduzida por outro integrante do tribunal. A sessão, convocada pelo presidente do STF, Edson Fachin, concentrará três disputas centrais: a validade do relatório produzido pela Polícia Federal a partir do celular de Vorcaro; a possibilidade de ministros diretamente envolvidos no caso participarem da decisão; e o acesso dos demais integrantes da Corte ao conjunto das provas.
O documento da PF reúne 52 mensagens trocadas entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. Segundo os investigadores, o banqueiro se encontrou oito vezes com o ministro e pediu ajuda para conter medidas contra o banco. O relatório também registra a atuação de Moraes em torno de um contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes. O ponto central da sessão, porém, não é decidir se Alexandre de Moraes cometeu alguma irregularidade. A questão é anterior: o material produzido pela PF pode ser considerado válido e há elementos suficientes para justificar uma investigação? A Procuradoria-Geral da República pediu a anulação do relatório. O argumento é que André Mendonça, então relator do caso Master, determinou o aprofundamento das apurações envolvendo um ministro do próprio Supremo sem uma solicitação prévia do Ministério Público ou da Polícia Federal.
Se o STF considerar que houve uma irregularidade capaz de invalidar o procedimento, a discussão sobre os indícios contra Moraes pode perder o objeto. Se entender que o relatório é válido, abre-se o caminho para uma segunda pergunta: o material é suficiente para justificar uma investigação? O advogado e doutor em Direito Miguel Barreto resume a lógica jurídica dessa etapa: "Pela lógica jurídica, o primeiro passo é julgar as preliminares, a principal delas é o pedido de nulidade da investigação feita pelo procurador-geral da República. Acredito que inicialmente deve-se apreciar esse pedido, reconhecimento ou não da nulidade desse pedido, para posteriormente seguir o julgamento." A diferença é importante porque a sessão não é um julgamento criminal de Alexandre de Moraes. Mesmo uma decisão favorável à abertura de inquérito não representaria uma conclusão sobre culpa. O rito divulgado pelo STF prevê a leitura do relatório por André Mendonça, manifestação da PGR e, em seguida, o início da votação.
A segunda disputa é de natureza institucional. O caso envolve diretamente dois ministros em posições opostas. Alexandre de Moraes aparece como possível alvo da investigação, enquanto Mendonça foi o responsável por determinar a produção do relatório que levou as mensagens ao conhecimento do plenário. Isso cria uma situação incomum: integrantes da própria Corte terão de decidir sobre a validade de uma investigação que envolve um de seus colegas. Dias Toffoli também tem sua participação sob questionamento, já que o ministro havia se declarado impedido em processos relacionados ao Banco Master. O STF, por sua vez, não confirmou previamente se Alexandre de Moraes participará da sessão.
A discussão sobre impedimento pode afetar diretamente a composição do colegiado e, consequentemente, o resultado da votação dos 10 ministros. Para o professor de Direito da UFMG e da PUC Minas José Luiz Quadros de Magalhães, a Corte precisa aplicar os mesmos critérios de suspeição e impedimento utilizados em qualquer outro processo: "O Supremo, sem dúvida, consegue e tem que julgar esse caso com isenção. Os casos de suspeição, que são casos que envolvem, por exemplo, o julgamento, o juiz vai julgar um familiar, ou se há interesse em julgar um caso em que esse ministro está diretamente envolvido, então, obviamente, tem que se levar em consideração, com relação a qualquer tipo de impedimento, ao envolvimento do ministro Alexandre de Borais e do ministro André Mendonça."
O terceiro ponto ajuda a explicar por que a crise se agravou às vésperas da sessão. Ministros do Supremo passaram a cobrar acesso integral aos dados extraídos do celular de Vorcaro. Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes receberam cópias do material. A preocupação era objetiva: que os ministros não julgassem a validade ou o alcance das mensagens tendo acesso apenas a um relatório parcial. Mendonça resistiu ao compartilhamento integral, argumentando que a abertura do conteúdo poderia interferir em investigações ainda em andamento. A discussão acabou transformando o acesso às provas em mais um capítulo da disputa interna do Supremo. Na véspera do julgamento, a PGR defendeu ainda a retirada do sigilo de uma petição considerada relevante para a análise do caso. A crise dos últimos dias já expôs uma divisão pouco comum dentro do Supremo. Mendonça levou ao plenário informações que atingem Alexandre de Moraes. Moraes reagiu questionando a condução das investigações por Mendonça. Fachin assumiu a condução do caso e determinou que a questão fosse levada ao colegiado.
O resultado da sessão terá consequências que vão além de Alexandre de Moraes. Se o Supremo conseguir estabelecer critérios claros para analisar a validade do relatório, definir quem pode participar e garantir acesso adequado às provas, poderá criar um precedente interno para situações futuras envolvendo ministros da própria Corte. Se, ao contrário, a sessão for dominada por disputas sobre impedimentos e acesso desigual às informações, a crise institucional tende a se aprofundar. Para José Luiz Quadros de Magalhães, o pior cenário seria interromper a apuração antes que os fatos fossem esclarecidos: "O mais grave agora seria arquivar. A investigação tem que continuar em relação ao ministro Alexandre de Moraes, em relação ao ministro André Mendonça, e em relação a todas as outras autoridades envolvidas", avaliou. A sessão começou às 10h desta terça-feira com transmissão pela TV Justiça e pela Rádio Itatiaia.