Escândalo do Master coloca impeachment de Moraes no debate presidencial

Foto: Reprodução/Youtube
Escândalo envolvendo Alexandre de Moraes e o Banco Master coloca o impeachment no centro do debate entre candidatos à Presidência
A crise no Supremo Tribunal Federal (STF), desencadeada pelo suposto envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, colocou o tema do impeachment de magistrados no centro do debate entre os candidatos à Presidência da República. A maioria dos presidenciáveis tem defendido publicamente o processo contra o ministro, numa estratégia que visa ampliar sua base de apoio popular. Alexandre de Moraes tornou-se o epicentro do conflito após um relatório da Polícia Federal mapear trocas de mensagens e ao menos seis encontros entre o magistrado e o banqueiro. A suspeita é de que o ministro do STF tenha recebido vantagens econômicas em troca de informações sigilosas sobre operações policiais repassadas a Vorcaro.
Todos os candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto se pronunciaram sobre o escândalo. O último a se manifestar foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição. Sem citar diretamente Alexandre de Moraes, em vídeo divulgado na noite de quinta-feira (3/9), o petista defendeu a abertura de investigações sobre o caso. O presidente declarou que a democracia "precisa de instituições fortes e respeitadas" e classificou ser "fundamental que se investigue todo mundo, sem blindagem de ninguém, doa a quem doer". Na gravação, Lula afirmou ainda que o Brasil "não pode ficar refém de vazamentos seletivos" e defendeu a criação de um código de ética para o Judiciário e para o Ministério Público.
Já o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato do PL à Presidência, adotou postura mais incisiva e aproveitou o escândalo para intensificar os ataques ao Judiciário. O parlamentar cobrou a abertura "imediata" de um processo de impeachment e acusou os senadores de estarem "anestesiados". "É inadmissível que tenhamos pessoas da cúpula do poder deste país suspeitas de vários crimes, isso não seja o assunto principal. É muito preocupante essa espécie de anestesia que estamos pelo Legislativo. Em especial, por parte desta Casa", disse Flávio, durante discurso no plenário do Senado. Outros presidenciáveis adotaram discurso semelhante ao do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em entrevista, Ronaldo Caiado (PSD) afirmou que o Senado "tem maioria para pedir e votar" o impeachment de Alexandre de Moraes, argumentando que a permanência do magistrado no cargo é insustentável diante dos elementos apresentados no relatório da PF.
O candidato Augusto Cury, do Avante, também comentou o caso e disse que o ministro deveria "se explicar" ou então passar pelo impeachment. "Alexandre de Moraes deve se explicar, sim. E se ele cometeu erros passíveis de uma exclusão, ele deveria ter a dignidade para se auto-excluir ou então sofrer o impeachment. Mas quem vai julgar é a Justiça", declarou durante reunião em São Paulo. Renan Santos, do Missão, foi além e protocolou um pedido de impeachment no Senado contra os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli por possível envolvimento no escândalo do Banco Master. As solicitações, encaminhadas ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), falam em "crime de responsabilidade" e "fatos de extrema gravidade".
O candidato afirmou que, se as suspeitas forem confirmadas, "podem indicar a existência de uma relação de favorecimento" entre Toffoli e Moraes com Daniel Vorcaro. Apesar de defender o impeachment de Alexandre de Moraes e criticar o escândalo do Banco Master, o senador Flávio Bolsonaro também aparece nas conversas de Vorcaro em razão do financiamento do filme "Dark Horse", que narra a trajetória de Jair Bolsonaro. O banqueiro teria feito um repasse de US$ 1,6 milhão para a obra em setembro de 2025, dias após o senador cobrar parcelas atrasadas. Esse repasse se soma a outros seis — dois de US$ 2 milhões e quatro de US$ 1,6 milhão —, realizados até maio de 2025, totalizando R$ 61 milhões.
Da ala petista, o senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Congresso, foi alvo da 9ª fase da Operação Compliance Zero, que apura supostas irregularidades envolvendo o Banco Master. Segundo os investigadores, o parlamentar teria recebido uma série de benefícios indevidos ao longo dos últimos anos, entre os quais o uso frequente de aeronaves ligadas ao grupo de Daniel Vorcaro, ingressos para shows e a negociação de um apartamento em Salvador avaliado em cerca de R$ 2,5 milhões. No âmbito do Senado, nove senadores — Alessandro Vieira (MDB-SE), Carlos Viana (PSD-MG), Cleitinho (Republicanos-MG), Damares Alves (Republicanos-DF), Esperidião Amin (PP-SC), Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Izalci Lucas (PL-DF), Luis Carlos Heinze (PP-RS) e Magno Malta (PL-ES) — defenderam o afastamento de Alexandre de Moraes, por impeachment ou renúncia. "É urgente o afastamento de Alexandre de Moraes pelo próprio Supremo Tribunal Federal, para o bem do Judiciário brasileiro. Não estamos falando aqui em atacar o Judiciário. Nada disso. Estamos falando em defender as instituições", disse Carlos Viana, ao comunicar que a oposição já havia protocolado um novo pedido de impeachment contra o ministro.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, questionado por jornalistas sobre o conteúdo das conversas entre Alexandre de Moraes e o banqueiro, criticou o volume de pedidos de impeachment na Casa e não sinalizou intenção de levar o caso adiante. "Eu não achei nada, não devo achar nada. Minha percepção é que tem 109 pedidos. Isso não é normal: 109 solicitações no Congresso de impeachment dos dez ministros do Supremo Tribunal Federal", afirmou. Em novo desdobramento da crise, o ministro Alexandre de Moraes acusou o colega André Mendonça de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade, encaminhando pedido ao ministro Edson Fachin, presidente da Corte, para que fossem tomadas providências.
Moraes utilizou o chamado Inquérito das Fake News, aberto em 2019, para embasar o pedido de ações contra Mendonça. Em resposta, Fachin abriu um procedimento para verificar se há nulidade nas ações de Mendonça ao solicitar que a Polícia Federal intensificasse as apurações sobre o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e sobre o próprio Alexandre de Moraes. Fachin concedeu cinco dias para que os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o PGR, Paulo Gonet, se manifestem sobre o caso.