Famílias endividadas e juros altos pressionam economia brasileira

© Marcello Casal JrAgência Brasil
Com a Selic ainda elevada, endividamento das famílias chega a 82% e afeta varejo, construção civil e bancos
O endividamento das famílias brasileiras atingiu o patamar recorde de 82% em julho, enquanto a Selic, mesmo após o corte para 14% na última quarta-feira (5), ainda mantém o Brasil entre os países com os maiores juros reais do mundo. O cenário de crédito caro afeta diretamente o orçamento dos consumidores e amplia a pressão sobre diferentes setores da economia.
Com o custo dos financiamentos elevado e o acúmulo de dívidas, as famílias passam a adotar um comportamento mais cauteloso nas compras. No varejo, a combinação de juros altos e menor disponibilidade de renda reduz a disposição para gastos e torna as decisões de consumo mais racionais.
O impacto também aparece nas empresas, que enfrentam um custo maior para utilizar recursos financeiros e precisam administrar o caixa com mais rigor. A taxa de juros elevada reduz a margem para investimentos e dificulta decisões de longo prazo, especialmente em setores que dependem diretamente do consumo das famílias.
Na construção civil, o endividamento também representa um obstáculo. Mesmo com taxas mais baixas em programas habitacionais como o Minha Casa Minha Vida, o comprometimento da renda com outros financiamentos pode impedir parte da população de assumir novas dívidas para comprar um imóvel.
A inadimplência entre consumidores do setor imobiliário também permanece elevada. Em algumas empresas, o índice de clientes inadimplentes varia entre 15% e 20%, enquanto as provisões destinadas a cobrir possíveis perdas com devedores também registraram crescimento no segundo trimestre de 2026. Diante desse cenário, as companhias buscam restringir a concessão de crédito sem comprometer suas margens e a rentabilidade dos negócios.
Os bancos também sentem os efeitos da política monetária restritiva. Juros elevados aumentam a pressão sobre as linhas de crédito e podem contribuir para o avanço da inadimplência. Ao mesmo tempo, uma trajetória de juros mais previsível e em níveis menores favorece o planejamento das instituições financeiras e o equilíbrio entre recursos captados e operações de crédito.
O cenário ainda pode mudar nos próximos meses. O último comunicado do Copom (Comitê de Política Monetária) manteve aberta a possibilidade de novos cortes da Selic na reunião de setembro. Uma desaceleração mais forte da economia pode aumentar o espaço para uma redução dos juros, embora a inflação continue sendo um dos principais fatores observados pelo Banco Central.
A expectativa é de que o crescimento do PIB brasileiro em 2026 seja inferior ao registrado em 2025. Com o endividamento das famílias em nível recorde e a Selic ainda elevada, consumidores, empresas e instituições financeiras seguem pressionados por um ambiente de crédito caro e menor capacidade de consumo e investimento.