Selic pode cair mais com desaceleração econômica

Foto: José Cruz/Agência Brasil
Retração do IBC-Br em junho e desaceleração no segundo trimestre ampliam espaço para novos cortes da Selic pelo Banco Central
A retração da atividade econômica em junho e a desaceleração registrada no segundo trimestre abrem espaço para que o Banco Central intensifique o ciclo de corte da taxa básica de juros, a Selic, nos próximos meses. O IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central), indicador que antecipa o resultado do PIB, registrou queda de 0,64% em junho, fazendo com que o índice deixasse o maior nível de sua série histórica, registrado em maio.
O resultado sinaliza perda de força da economia nacional. A prévia do BC indica que o desempenho do PIB no segundo trimestre foi inferior ao registrado nos três primeiros meses do ano, período em que a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5.000 e a valorização real do salário mínimo estimularam o consumo. "Parece que agora no segundo trimestre a gente volta ao patamar de desaceleração observado no final do ano passado, principalmente a tendência de desaceleração", avalia Antonio Ricciardi, economista do Daycoval. Analistas do mercado financeiro avaliam que o andamento da economia será determinante para as próximas definições da Selic. "A atividade realmente está enfraquecendo, e essa é a leitura que o Copom terá na mão", afirma Paulo Gala, economista e professor da FGV (Fundação Getulio Vargas).
A perda de força da economia também permite compreender o papel da Selic em dois dígitos desde fevereiro de 2022, que nem sequer foi compensada pelos estímulos fiscais do governo. Relatório do Itaú, assinado por Diogo Guillen, economista-chefe do banco, reforça essa leitura: "A decepção com a atividade no segundo trimestre parece refletir menos um cenário em que os estímulos fiscais tiveram efeito pleno e apenas amorteceram uma desaceleração mais intensa". O documento aponta que o cenário do IBC-Br reflete os efeitos da política monetária restritiva sobre a economia.
O mercado financeiro revisou as perspectivas para a Selic ao final de 2026. As expectativas apontam para a manutenção do ciclo que reduziu a taxa básica de juros de 15% para 14% ao ano nas últimas quatro reuniões. "Esperamos a continuidade da desaceleração da economia, com o PIB variando 1,8% em 2026, o que permitirá ao Copom manter o ciclo de calibração da Selic, encerrando o ano a 13,25% ao ano", diz André Valério, economista sênior do Inter. A mediana das expectativas do Relatório Focus indica que a Selic será reduzida mais uma vez em 0,25 ponto percentual neste ano, fechando o período em 13,75% ao ano. As apostas para o fim de 2026, no entanto, variam entre uma taxa terminal de 14,25% ao ano e de 12,75% ao ano, refletindo incertezas sobre o ritmo da desaceleração econômica.
A última ata do Copom deixou o futuro da Selic em aberto, condicionando as próximas decisões à evolução da inflação e de outros indicadores econômicos, como o nível de atividade, a taxa de desemprego e a renda. "A magnitude do ciclo de calibração [da Selic] será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", diz o documento, que justificou o quarto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, demonstrou preocupação com a demanda aquecida, avaliando que a busca interna por bens e serviços cresce de forma mais acelerada do que o ritmo de expansão da oferta. "Quando você olha para a política monetária, é óbvio que o mandato é você conseguir reequilibrar a oferta e demanda, e é por isso que a gente coloca a taxa de juros em um patamar restritivo", afirmou durante a 27ª Conferência Anual do Banco Santander.
Galípolo ainda acrescentou: "O que explica o ciclo da política monetária está muito mais relacionado com questões endógenas, com questões internas de você ter, por diversos indicadores, essa demonstração de um país que vem crescendo há alguns anos, puxado pela demanda, e isso acaba se revelando em uma pressão inflacionária". A Selic é o principal instrumento de política monetária do Brasil no combate à inflação. A manutenção dos juros em patamar elevado limita o consumo e contém o avanço dos preços. Por outro lado, quando a Selic recua, ela estimula o consumo e os preços tendem a subir em razão da maior demanda por bens e serviços.