Selic a 14% mantém renda fixa atrativa, diz mercado

© Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo
Com a Selic em 14% ao ano, especialistas recomendam títulos pós-fixados e atrelados ao IPCA, que seguem com retornos reais elevados
A decisão do Copom de reduzir a taxa básica de juros, a Selic, para 14% ao ano mantém a renda fixa em destaque entre os investidores, com atenção especial para os títulos pós-fixados e os indexados à inflação. Especialistas consultados pela Folha apontam que o quarto corte consecutivo da Selic preserva a vantagem dos investimentos atrelados à própria taxa básica ou ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário), sua referência no mercado privado. Marcelo Freller, estrategista de produtos de investimento do C6 Bank, avalia que a nova redução da Selic praticamente não altera a estratégia de alocação recomendada. "Os pós-fixados devem continuar apresentando bom desempenho, com baixa volatilidade, em um ambiente de Selic elevada por mais tempo. Eles seguem sendo a nossa principal preferência de investimento", afirma.
Os títulos pós-fixados acompanham a Selic ou o CDI, o que reduz a sensibilidade às oscilações de curto prazo da taxa básica. Segundo levantamento do C6 Bank, o Tesouro Selic com vencimento em 2028 deve oferecer retorno real líquido de 6,84% — já descontados o Imposto de Renda e a inflação projetada — considerando uma aplicação de um ano. Vinicius Romano, coordenador de investimentos da Suno Consultoria, reforça a solidez desse tipo de aplicação. "O pós-fixado é o indexador mais conservador dentro da renda fixa. Quem compra um Tesouro Selic, por exemplo, está investindo no título mais seguro da economia brasileira. Mesmo com a redução de 0,25 ponto percentual e os cortes das últimas reuniões, os juros continuam em um patamar muito elevado", diz.
Outra categoria que permanece atrativa, segundo os analistas, é a dos títulos indexados ao IPCA. Esses papéis remuneram o investidor pela inflação acumulada acrescida de uma taxa prefixada de juros. Na última quarta-feira (5), o Tesouro Direto oferecia títulos IPCA+ com juros reais superiores a 8% ao ano. O papel com vencimento em 2032, por exemplo, pagava inflação mais 8,13%. De acordo com o C6 Bank, um CDB atrelado ao IPCA com prêmio de 8,20% ao ano proporciona retorno real líquido de 6,06%, em uma aplicação de um ano. "É uma classe de ativos interessante, principalmente pelo nível bastante elevado dos juros reais.
Desde que os títulos IPCA+ passaram a oferecer taxas próximas de 6,5% ao ano, a recomendação tem sido de compra. De lá para cá, esse patamar só aumentou, atingindo, em alguns vencimentos, um dos maiores níveis observados nas séries históricas", afirma Romano. O prazo do investimento, porém, altera o perfil de risco da aplicação. Títulos de vencimentos mais longos ficam mais expostos à marcação a mercado — a variação do preço do papel antes do vencimento — caso o investidor precise resgatar o recurso antecipadamente. "Os vencimentos mais longos são mais sensíveis ao risco fiscal. Já os títulos de prazo mais curto podem ser uma boa alternativa, considerando a expectativa de inflação mais elevada nos próximos anos", diz Freller, do C6.
Fora da renda fixa, a redução da Selic tende a beneficiar a renda variável. Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, destaca que "juros em queda aumentam a atratividade dos ativos da Bolsa e podem representar uma boa oportunidade para o investidor ampliar a exposição". Segundo ela, a queda dos juros também reduz o custo da dívida das empresas e estimula o consumo. "Esse efeito é especialmente positivo para setores mais sensíveis ao crédito, como varejo, imobiliário e small caps", afirma. No acumulado do ano, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, sobe 10,8%, enquanto o índice de small caps, que reúne empresas de menor valor de mercado, recua 3,9%. R
omano, da Suno Consultoria, vê espaço para recuperação desse segmento: "Há espaço para valorização das small caps, que não acompanharam o desempenho das blue chips. Se houver avanço na agenda fiscal, principalmente pelos efeitos sobre a trajetória dos juros, acreditamos que esse segmento pode apresentar um desempenho bastante interessante". Pelas projeções do Boletim Focus desta segunda-feira (3), a Selic deve encerrar 2026 em 13,75% ao ano, o que implica mais um corte de 0,25 ponto percentual em relação ao patamar atual. O relatório também prevê que o IPCA termine o ano em 5,03%, acima do teto da meta de inflação perseguida pelo Banco Central, de 4,5%. O centro da meta é de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%. As perspectivas para a inflação e os juros no Brasil seguem influenciadas pelo cenário externo, marcado pelas incertezas em torno da guerra entre EUA e Irã e pelos riscos de novos choques nos preços da energia. "Mesmo que o Brasil esteja em um ciclo de afrouxamento monetário, o cenário não está livre de choques inflacionários, que podem levar o Copom a interromper o ciclo de cortes de juros", alerta Paula Zogbi.