Lobby de ex-diretor da Vale foi peça-chave em projeto ilegal de minério, diz PF

Foto: Divulgação / Meteoric Resources
Ex-diretor da Vale com 30 anos de casa teria usado influência para viabilizar exploração ilegal no subsolo do Projeto Apolo em Minas Gerais
A atuação de um ex-executivo com quase três décadas de trajetória na mineradora Vale foi a peça central para viabilizar uma espécie de "Projeto Apolo Clandestino", uma estrutura de direitos minerários que pretendia operar à sombra e sobreposta ao território da gigante da mineração na região Central de Minas Gerais.
Conforme o relatório final da Polícia Federal (PF) na operação Intrafortis, desmembramento da operação Rejeito concluído nesta semana, o ex-diretor Marconi Tarbes Vianna foi contratado pelo grupo criminoso liderado pelo delegado e ex-superintendente da PF, Rodrigo de Melo Teixeira, para fazer lobby e possibilitar a exploração no subsolo da área do megaprojeto da Vale, apresentado em 2009 e ainda pendente de licenciamento ambiental.
A investigação detalha que o esquema teve origem em dois direitos minerários formalmente transferidos à Brava Mineração Ltda., empresa que trazia como sócios ocultos dois dos indiciados no inquérito: o delegado federal Rodrigo Teixeira e Gilberto Henrique Horta de Carvalho, apontado como operador do esquema.
Os direitos de exploração estavam situados exatamente no subsolo de uma área de superfície onde a Vale pretende instalar o chamado "Projeto Apolo", entre os municípios de Caeté e Santa Bárbara.
Conforme a PF, apesar de a área não ter vínculo operacional legítimo inicial com a multinacional, o grupo chegou a utilizar o nome do projeto para vender os ativos a investidores.
Após frustradas tentativas de venda dos títulos a outras mineradoras, os integrantes da Brava Mineração se depararam com um entrave logístico e regulatório: para realizar pesquisas e lavrar o minério de ferro, era obrigatório obter a anuência da superficiária, ou seja, da própria Vale.
Foi então que, para contornar o bloqueio, a organização recorreu aos serviços de Vianna.
"Considerando que os referidos direitos minerários se situam no subsolo de superfície sob controle da empresa Vale S.A., localizada na região conhecida como "Projeto Apolo", os sócios da Brava verificaram a necessidade de interlocução com a empresa. Para tanto, por intermédio de Gilberto Horta, realizaram a contratação de Marconi Tarbes Vianna, ex-diretor da Vale por cerca de trinta anos, o que se mostrou importante para a negociação dos direitos minerários", registrou a corporação no documento.
O inquérito destaca ainda que a influência interna do ex-diretor foi decisiva para o avanço do esquema.
"A capacidade de acesso e influência de Marconi junto à alta gestão da companhia despontou como condição essencial para viabilizar a continuidade do projeto, denominado pelo grupo criminoso de "Projeto Apolo"", completou a PF.
A aproximação com a cúpula da Vale e o avanço das tratativas aparecem em diálogos monitorados pelos investigadores.
Em 15 de março de 2022, a empresária Ursula Paula Deroma, também indiciada, enviou áudio no grupo de WhatsApp "Mineração Apolo/Jeceaba", convocando os comparsas para uma reunião com o ex-executivo da mineradora.
"Ele (Vianna) me ligou aqui, ele quer definir conceito, como vai ser, como vai entrar na Vale, no Apolo, como é que tá Bela Vista... ele quer definir tudo antes de fazer o planner pra pôr na parede, se vamos arrumar investidor... deu um monte de detalhe! (...) eu chamei até o Rodrigo também", traz o documento.
O relatório veio à tona menos de uma semana após O TEMPO revelar que a Vale teria comprado 523,8 mil toneladas do minério ilegal extraído da serra do Curral pela Empabra, empresa alvo da operação Parcours, também da PF.
Na ocasião, a Vale alegou que a compra de produtos extraídos por "mini-minas" é "comum no setor" e que inclusive "é divulgada regularmente nos relatórios de produção".
A reportagem procurou a Brava e o escritório de Marconi e Bernardo Vianna, mas ninguém se manifestou sobre o caso até o fechamento. Também foram tentados contatos com as defesas dos suspeitos indiciados, sem sucesso.
A Vale informou por nota que "não se manifesta sobre especulações oficiosas".
Ex-diretor virou sócio de mineradora
A interlocução entre o grupo criminoso e o ex-diretor da Vale abriu caminho para a criação da Sociedade de Propósito Específico (SPE) Hermes Mineração Ltda., constituída especificamente para executar a lavra no subsolo da área onde a Vale pretendia instalar o Projeto Apolo.
O negócio revelou-se tão lucrativo que o próprio ex-diretor passou de intermediador a sócio do empreendimento.
"Aqui, vale sublinhar que o negócio se tornou tão atraente que o próprio Marconi passou a integrar a sociedade que comprou os títulos minerários da Brava (Hermes), como será visto mais adiante", aponta um dos trechos do relatório final da PF.
Com base em documentos apreendidos com Bernardo Tarbes Vianna, filho do ex-diretor, peritos federais calcularam que a produção bruta prevista para a exploração mineral na área era de 300 mil toneladas anuais ao longo de 35 anos de vida útil da mina.