Milei liga queda da natalidade ao aborto, mas dados contradizem argumento

Foto: World Economic Forum/Flickr
Presidente argentino afirmou que a "paixão por assassinar crianças" prejudica o crescimento do país, sem apresentar dados que comprovem a afirmação
O presidente da Argentina, Javier Milei, associou a queda de natalidade no país à lei de aborto, vigente desde 2021. Durante discurso na abertura da conferência do Conselho das Américas, na noite de quinta-feira (20), em Buenos Aires, Milei afirmou que a "paixão por assassinar crianças" estaria prejudicando o crescimento do país.
O chefe do Executivo argentino, no entanto, não apresentou dados que comprovem o argumento. Informações do Ministério da Saúde da Argentina indicam que a queda nos nascimentos já era registrada antes mesmo da promulgação da lei de aborto, há cinco anos.
"Essa, digamos, paixão por assassinar crianças no ventre da mãe também nos está custando caro em termo de crimento", discursou Milei. "Hoje, a Argentina não chega a uma taxa de natalidade que permita e reposição", acrescentou o presidente durante o evento.
Segundo o Ministério da Saúde argentino, a taxa de natalidade do país começou a recuar em 2014, muito antes da legalização do aborto.
Um relatório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) aponta que a Argentina atravessa uma transformação demográfica "profunda", com queda acelerada da fecundidade para 1,2 filho por mulher em 2024 — número bem abaixo do nível de reposição populacional, estimado em 2,1 filhos por pessoa.
O mesmo indicativo da UNFPA aponta que esse cenário resulta de múltiplos fatores: limitações financeiras, insegurança no emprego, dificuldades de acesso à moradia e falta de opções para o cuidado dos filhos são as principais razões pelas quais mais de 60% das pessoas tiveram menos filhos do que gostariam.
A Argentina legalizou a Interrupção Voluntária da Gravidez com a aprovação da Lei 27.610, promulgada em janeiro de 2021, garantindo o procedimento como um direito de saúde no país.
Milei sempre classificou o aborto como um "homicídio agravado pelo vínculo", embora não tenha apresentado nenhuma iniciativa concreta para revogar a legislação. Ainda assim, ONGs e ativistas acusam o governo liderado por Milei de ter desmontado programas e instituições voltados à saúde sexual e reprodutiva, criando obstáculos ao acesso à interrupção legal da gravidez.
A Argentina se tornou o maior país da América Latina a legalizar o aborto. Cuba, Uruguai e Guiana, além do estado mexicano de Oaxaca e da Cidade do México, já haviam adotado a prática anteriormente.
No Chile, o aborto é permitido em três situações específicas: risco de vida para a gestante, inviabilidade fetal e gravidez resultante de estupro.