Vacina experimental evita avanço de câncer em teste

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Estudo de fase 3 da Merck e Moderna mostra que vacina personalizada reduz recorrência do melanoma após cirurgia
Uma vacina personalizada contra o câncer, desenvolvida a partir das características do próprio tumor, apresentou resultados positivos em pacientes com melanoma após cirurgia. O tratamento, baseado em tecnologia de mRNA e combinado a uma imunoterapia já consolidada na prática clínica, aumentou o tempo em que os pacientes permanecem sem sinais da doença e sem metástases. Os dados são de um estudo de fase 3 conduzido pelas farmacêuticas Merck e Moderna com pacientes que tiveram o melanoma completamente removido cirurgicamente, mas ainda apresentavam risco de recorrência.
Em relatório divulgado na quarta-feira (19/8), as empresas informaram que a combinação do imunizante experimental com o pembrolizumabe, conhecido como Keytruda, foi superior ao uso do imunoterápico isolado. Diferente das vacinas tradicionais, voltadas para prevenir infecções, esse tratamento é desenvolvido sob medida para cada paciente. A partir de uma amostra do tumor, os pesquisadores identificam mutações específicas e produzem uma molécula de mRNA capaz de ensinar o sistema imunológico a reconhecer essas alterações.
A ideia é que o organismo passe a identificar e atacar células cancerosas que carregam essas mesmas características. O pembrolizumabe, por sua vez, atua liberando a resposta imune ao bloquear mecanismos que o tumor usa para escapar da vigilância do corpo. "Os resultados representam um marco para o tratamento adjuvante do melanoma. O intismeran, combinado ao pembrolizumabe, pode reduzir o risco de recorrência ou morte em pacientes após a cirurgia", afirmou a oncologista Georgina Long, principal autora do estudo, em comunicado. A pesquisa incluiu pacientes com melanoma em estágios IIB a IV que não haviam recebido tratamento sistêmico antes da cirurgia. Em uma análise interina, o grupo que recebeu a combinação apresentou melhora tanto na sobrevida livre de recorrência quanto na sobrevida livre de metástase à distância. Esses indicadores mostram por quanto tempo o paciente permanece sem o câncer voltar e sem que ele se espalhe para outras partes do corpo. O estudo ainda está em andamento e também vai avaliar outros desfechos, como a sobrevida dos pacientes ao longo do tempo.
De acordo com as empresas, não foram identificados novos problemas de segurança, e os efeitos observados foram semelhantes aos já conhecidos para os tratamentos envolvidos. Apesar dos resultados promissores, os dados completos ainda serão apresentados em congresso científico e analisados por autoridades regulatórias, o que significa que o tratamento ainda não está disponível na prática clínica. "Ao tratar o câncer após a cirurgia, o objetivo é aumentar as chances de cura. Esses resultados reforçam a proposta de terapias personalizadas", disse Dean Li, presidente dos laboratórios de pesquisa da Merck. A tecnologia também está sendo investigada em outros tipos de câncer, como pulmão, bexiga e rim, além de tumores em fases iniciais de estudo. O que os pesquisadores observam até agora é que usar o próprio perfil genético do tumor para orientar o tratamento pode ajudar o sistema imune a agir de forma mais direcionada, reduzindo as chances de o melanoma e outros cânceres voltarem após a cirurgia.