Tarifas de Trump rompem negociações e elevam tensão entre EUA e Canadá

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — Foto: Ludovic Marin/AFP
Mark Carney promete retaliação "dólar por dólar" após Washington impor tarifas de 50% sobre produtos canadenses
As negociações comerciais entre Canadá e Estados Unidos entraram em colapso na noite de sexta-feira, dando início a uma escalada tarifária que rompe décadas de relação próxima entre os dois vizinhos norte-americanos. O impasse resultou na aplicação de tarifas inéditas por Washington e na promessa de retaliação por parte do governo canadense, liderado pelo primeiro-ministro Mark Carney.
A partir da meia-noite de sábado, os EUA passaram a cobrar tarifas de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses, incluindo aço, equipamentos de hóquei, laticínios, bebidas alcoólicas e madeira. Para isso, Washington recorreu à Seção 338 da Lei Tarifária de 1930, um mecanismo que nunca havia sido utilizado anteriormente para impor tarifas e que não possui prazo de validade nem exige investigação prévia.
Em resposta à medida americana, Mark Carney anunciou que o Canadá vai retaliar "dólar por dólar" a partir de 8 de setembro, com tarifas sobre aço, laticínios, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, papel, celulose e produtos eletrônicos americanos. "Eles pediram demais e ofereceram de menos", declarou Carney, que classificou as novas tarifas como "um erro de cálculo" e afirmou que o Canadá foi "atacado".
Por que o acordo fracassou
Segundo Mark Carney, os negociadores americanos incluíram, na reta final das conversas, exigências consideradas inaceitáveis pelo lado canadense. Entre elas, estavam a exclusão de caminhões médios e pesados — como os fabricados nas plantas da Ford em Oakville e da GM em Oshawa — da redução tarifária prevista para veículos. Além disso, foram apresentadas cláusulas que limitariam a capacidade canadense de fechar acordos comerciais com outros países e que, segundo autoridades de Ottawa, ameaçariam políticas de proteção à cultura e à língua francesa.
Já o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, atribuiu o fracasso das negociações a "novas exigências e recuos" do lado canadense e informou que não há novas conversas previstas entre os dois países.
O impacto econômico
As novas tarifas afetam cerca de 5% das exportações canadenses aos EUA — uma proporção que analistas consideram limitada para a economia americana, mas capaz de golpear duramente setores específicos, como madeira, alumínio e eletrônicos, com risco de perda de empregos. O RBC (Royal Bank of Canada) estima um impacto de 0,4% no PIB canadense, enquanto a Capital Economics projeta 0,6%. Do lado americano, a tarifa média sobre produtos canadenses deve subir de cerca de 5,3% para 7,6%, segundo o Yale Budget Lab.
A ruptura ocorre em meio à revisão do acordo comercial entre EUA, México e Canadá — o USMCA, sucessor do Nafta —, que Washington já sinalizou não querer renovar nos termos atuais. A relação entre os dois países já vinha desgastada por comentários repetidos do presidente Donald Trump sobre transformar o Canadá no "51º estado" americano, fala que gerou indignação popular no país vizinho e alimentou uma petição com quase 248 mil assinaturas pedindo a expulsão do embaixador americano em Ottawa.
Lideranças de diferentes partidos e províncias canadenses, incluindo a oposição conservadora, fecharam apoio à decisão de Mark Carney de não assinar o acordo, demonstrando rara unidade política diante da crise com os EUA.