Leonardo Luz: 'Os impactos econômicos do novo El Niño já começam a ser sentidos'

Leonardo Luz: ‘’Os impactos econômicos do novo El Niño já começam a ser sentidos e ameaçam as cadeias globais de valor’’
El Niño ameaça elevar preços, afetar a produção e pressionar cadeias globais de abastecimento
O fantasma da inflação climática voltou a assombrar as mesas de trading de commodities, as diretorias de grandes empresas e os gabinetes de formulação de política monetária dos principais bancos centrais ao redor do globo. Modelos meteorológicos de alta precisão, capitaneados por dados consolidados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/INPE) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM), confirmam que o planeta está imerso na consolidação de um novo e severo evento El Niño para o biênio de 2026 e 2027. O fenômeno transcendeu há muito tempo os limites dos mapas meteorológicos e das discussões estritamente ambientais. Ele atua, na verdade, como um dos mais potentes e imprevisíveis indutores de choques de oferta na economia global contemporânea, redesenhando fluxos de capital internacional, ditando o ritmo das taxas de juros domésticas e ameaçando a estabilidade do PIB de países inteiros, tanto em mercados emergentes quanto em economias consolidadas.
O El Niño é um fenômeno climático global caracterizado pelo aquecimento anormal e prolongado das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Em termos meteorológicos, esse aquecimento enfraquece os ventos alísios (que normalmente sopram de leste para oeste), alterando a circulação de massas de ar e deslocando as zonas de forte chuva para o centro e o leste do Pacífico. Essa mudança drástica na atmosfera altera o padrão de circulação de ventos em alta altitude, gerando um efeito cascata que desregula o clima em escala planetária, provocando secas severas em algumas regiões e tempestades inundantes em outras.
Um choque climático de tamanha magnitude produz, inadvertidamente, impactos da estrutura de oferta de toda a economia global. Para mensurar com precisão e rigor macroeconômico o tamanho do desafio que se desenha para o horizonte de 2026/2027, analistas de instituições multilaterais recorrem com frequência a eventos passados, notadamente os superciclos ocorridos nos anos de 1997/1998, 2015/2016 e a passagem mais recente ocorrida em 2023/2024. O evento do final da década de 1990, por exemplo, foi classificado como um dos mais destrutivos do século passado, gerando prejuízos diretos estimados em mais de US$ 34 bilhões à época e empurrando países da América Latina e da Ásia para crises cambiais e espirais inflacionárias severas, num momento em que essas economias ainda buscavam estabilização monetária após a sequência de crises vividas na década.
O ciclo de 2015/2016 demonstrou o poder de devastação setorial do fenômeno em um mundo hiperconectado. Naquele período, a severa estiagem que assolou o Sudeste e o Nordeste do Brasil dizimou lavouras estratégicas de cana-de-açúcar e café, provocando uma quebra de safra histórica que reduziu a oferta interna e fez com que o IPCA do grupo "Alimentação no Domicílio" disparasse impressionantes 15,07% no acumulado de doze meses. Esse violento choque nos preços dos alimentos gerou um forte efeito inercial sobre os índices de preços gerais, empurrando o IPCA consolidado para a casa dos dois dígitos (10,67% em 2015). Diante desse cenário de desancoragem das expectativas inflacionárias, o Banco Central do Brasil, liderado pelo Comitê de Política Monetária (Copom), foi forçado a adotar uma postura mais dura, mantendo a taxa Selic em patamares restritivos de 14,25% ao ano por 14 meses consecutivos para conter a propagação desses efeitos secundários na cadeia de suprimentos e na economia real.
O ciclo de 2023/2024, considerado um dos cinco mais intensos já registrados na história moderna, expôs de forma dramática a vulnerabilidade da infraestrutura logística e energética global diante do estresse climático. De acordo com dados da Autoridade do Canal de Panamá (ACP), a estiagem severa provocada pelo fenômeno reduziu o nível do lago Gatún a patamares críticos, forçando uma redução drástica no tráfego de navios de uma média diária de 36 para apenas 22 embarcações, além de restringir o calado máximo para 44 pés. Esse gargalo gerou um efeito cascata no comércio internacional, com o índice de frete marítimo global (Drewry World Container Index) registrando saltos de até 150% em rotas importantes no início de 2024, enquanto o tempo de espera para a travessia de navios graneleiros saltou de dias para semanas. No Brasil, o impacto foi profundamente assimétrico, de modo que as regiões Norte e Centro-Oeste amargaram secas severas que provocaram quebras de mais de 10% nas safras de soja e milho da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e o menor nível histórico do Rio Negro na Amazônia, enquanto o Sul enfrentou inundações torrenciais que devastaram a infraestrutura rual e inviabilizaram a colheita do arroz e do trigo, provocando repiques imediatos na inflação doméstica de alimentos de curto prazo.
Estudos recentes, publicados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e por pesquisadores da Universidade de Dartmouth, trazem dados ainda mais alarmantes ao apontar que episódios severos do El Niño possuem um efeito de cauda longa na atividade econômica, cujas perdas acumuladas globalmente podem ultrapassar a impressionante marca de US$ 3 trilhões em um intervalo de cinco anos após o término do fenômeno. Isso ocorre porque o El Niño altera de forma assimétrica a produtividade dos fatores de produção globais através de extremos climáticos opostos. Enquanto a Ásia e a Austrália sofrem com secas extremas que minam as safras de grãos, a costa oeste da América do Sul e o sul dos Estados Unidos enfrentam inundações torrenciais que destroem infraestruturas de transportes e paralisam atividades extrativistas.
No cenário em que nos encontramos, onde os mercados ainda buscam um ponto de equilíbrio estrutural após anos de gargalos logísticos decorrentes de tensões geopolíticas, o repique inflacionário das commodities agrícolas surge como a primeira e mais visível linha de defesa ameaçada. O Índice de Preços de Alimentos da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) já apresenta fortes sinais de volatilidade nos contratos futuros de arroz, trigo, açúcar e óleo de palma, sinalizando que a segurança alimentar global enfrentará pressões severas em 2027, impulsionada pelo fantasma do protecionismo, uma vez que nações asiáticas tendem a restringir exportações para abastecer seus mercados internos.
O impacto logístico do El Niño também se apresenta de forma contundente - e cara - para as cadeias globais de valor. A experiência recente do biênio 2023/2024 deixou uma lição clara sobre a vulnerabilidade do comércio marítimo global quando o fenômeno secou as bacias hidrográficas que alimentam o Canal de Panamá. No horizonte de 2026/2027, operadores de logística, companhias de navegação e empresas seguradoras trabalham com modelos de contingência financeira elevados, antecipando que gargalos semelhantes voltem a pressionar as margens operacionais da indústria global, encarecendo produtos manufaturados e insumos intermediários de ponta a ponta.
No território brasileiro, o El Niño opera como uma força econômica regionalmente dicotômica e profundamente desigual. De acordo com os relatórios analíticos de safra emitidos pela Conab, essa assimetria geográfica testa os limites de resiliência do agronegócio nacional, que responde por uma fatia substancial do PIB e das exportações brasileiras. O Centro-Oeste - principal cinturão produtor de soja e milho do país - sofreu com o atraso crônico no regime de chuvas de primavera, o que atrasa o ciclo de plantio da safra principal e, por consequência direta, encurta severamente a janela climática ideal para o cultivo da "safrinha" de milho do ano seguinte, expondo o produtor a riscos elevados de geadas ou secas precoces e inflacionando os prêmios cobrados pelas companhias de seguro agrícola. O encarecimento esperado do milho e do farelo de soja gera um efeito dominó que atinge a cadeia de proteína animal, elevando os custos de ração para a avicultura e a suinocultura e pressionando as margens das grandes companhias do setor.
Em contrapartida, as lavouras do Sul enfrentam o problema inverso. Embora o excesso de umidade possa, em um primeiro momento, favorecer certas culturas de inverno, a recorrência de chuvas torrenciais e enchentes compromete a qualidade física dos grãos e inviabiliza o tráfego de maquinários agrícolas pesados no período crucial da colheita. Além das perdas diretas na porteira, as tempestades destroem pontes, estradas rurais e ferrovias vicinais, encarecendo o custo do frete rodoviário interno e gerando filas nos portos de Paranaguá e Rio Grande. Mais ao Norte, a seca severa projeta cenários preocupantes para a bacia amazônica. A redução dramática do nível dos rios navegáveis ameaça paralisar o escoamento de grãos pelo chamado "Arco Norte" e reeditar a crise logística que afetou o Polo Industrial de Manaus no passado, quando a impossibilidade de navegação de grandes barcaças interrompeu o recebimento de componentes eletrônicos e insumos industriais, encarecendo a produção de bens duráveis e afetando o comércio varejista nacional.
Para além das fronteiras agrícolas e logísticas, os desdobramentos macroeconômicos do El Niño encontram o cotidiano das grandes cidades brasileiras através de uma das vias mais sensíveis para o bolso do consumidor e para a competitividade industrial: o setor elétrico. A matriz de geração de energia do país, historicamente dependente do regime hidrológico, ressente-se da escassez de chuvas nas cabeceiras dos rios que alimentam os principais reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste. Com a queda dos níveis de armazenamento nas hidrelétricas, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) é obrigado a acionar o parque gerador de usinas termelétricas. Por utilizarem combustíveis fósseis como gás natural, óleo diesel e carvão, a energia gerada por essas usinas possui um custo unitário significativamente superior ao da fonte hidráulica. O repasse desse custo adicional ao consumidor final ocorre por meio do acionamento das bandeiras tarifárias amarela ou vermelha pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
A elevação da tarifa de energia elétrica atua como um verdadeiro choque de custos horizontal na economia. Ela encarece diretamente o processo produtivo de indústrias eletrointensivas, como as de alumínio, aço, cimento e papel, reduzindo a competitividade do produto nacional no exterior e pressionando o comércio de bens e serviços. Simultaneamente, o encarecimento da conta de luz drena a renda disponível das famílias, contraindo o consumo de outros setores do varejo. Do ponto de vista analítico, os custos de energia e alimentos possuem um peso elevado no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e quando ambos os vetores sobem ao mesmo tempo, gera-se uma pressão nos preços de forte apelo popular e de difícil contenção, deteriorando as expectativas de inflação de longo prazo.
Diante de um cenário desenhado por choques de oferta simultâneos em alimentos e energia, a condução da política monetária pelo Banco Central ganha contornos de extrema complexidade. A autoridade monetária depara-se com o clássico dilema dos bancos centrais: calibrar a Selic para combater a alta de preços decorrente de fatores climáticos sobre os quais os juros não têm controle direto. Se o Banco Central mantiver os juros excessivamente elevados para ancorar as expectativas e evitar que o choque temporário se dissemine pela inflação inercial de serviços, ele corre o risco de desaquecer ainda mais uma atividade econômica já debilitada pelos custos climáticos. Se, por outro lado, for condescendente com a alta temporária, corre o risco de ver as metas de inflação fixadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) serem descumpridas, minando a credibilidade institucional do país perante os investidores internacionais. E tudo isso em um cenário de grande pressão fiscal oriunda do comportamento perdulário do governo federal – e agravado pela natural irresponsabilidade fiscal comum em anos eleitorais – e da grande incerteza produzida pelo conflito entre Israel, EUA e Irã, que afeta diretamente as cadeias produtivas por meio dos preços do petróleo e do diesel.
Nos mercados financeiros e de alocação de ativos, os próximos meses exigirão uma postura defensiva e altamente estratégica por parte dos investidores na Bolsa de Valores. Companhias focadas na exportação de commodities que encontram preços valorizados no mercado internacional por escassez global, como produtores de açúcar e etanol ou grandes exportadores de grãos com estruturas logísticas verticalizadas, tendem a demonstrar maior resiliência e geração de valor. Por outro lado, empresas de varejo, construção civil e companhias aéreas tendem a enfrentar ventos contrários significativos devido ao encarecimento do crédito doméstico e à compressão do poder de compra da população. A pressão sobre os bancos centrais, que deve produzir juros mais elevados ou a persistência de algum aperto adicional das condições financeiras, pode ser um tiro certeiro nos resultados financeiros das empresas mais endividadas, que devem adiar suas expectativas de alívio nos balanços e operar com lucros líquidos mais estreitos.
Em última análise, a recorrência de episódios climáticos extremos impõe uma transformação incontornável na forma como corporações, mercados financeiros e autoridades monetárias tomam decisões. Embora haja um esforço crescente para integrar os choques climáticos diretamente aos modelos de precificação de ativos e às decisões de política monetária, a mensuração do impacto econômico real desses eventos permanece um desafio monumental, dado seu caráter não linear, assimétrico e imprevisível. Em um ambiente onde o custo da energia flutua conforme o nível dos reservatórios, o frete marítimo depende da navegabilidade de canais estratégicos e a volatilidade das commodities dificulta a calibração das taxas de juros, a incerteza associada a esses choques de oferta ameaça margens operacionais, estabilidade cambial e expectativas inflacionárias. O biênio 2026/2027 deixa claro que a estabilidade macroeconômica e a resiliência corporativa não dependerão apenas da disciplina fiscal ou do controle monetário tradicional, mas sim da capacidade de gerenciamento e proteção da estrutura produtiva contra choques de custo cada vez mais complexos.