Ebola no Congo se torna a epidemia mais letal da história do país

Trabalhadores da saúde mobilizados em resposta a um surto de Ebola - Foto: Arlette Bashizi/The New York Times
Surto de Ebola supera 2.325 mortos na RDC em apenas três meses, tornando-se o mais letal da história do país
A epidemia de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) tornou-se, nesta segunda-feira (17), a mais letal da história do país. Em apenas três meses, o surto superou as 2.299 mortes registradas na epidemia de 2018-2020, acumulando agora 2.325 mortos e 4.945 casos confirmados. A variante Bundibugyo, responsável pelo surto atual, não conta com vacina nem tratamento disponível. O secretário de assuntos humanitários da ONU, Tom Fletcher, alertou na semana passada que a epidemia "é a de propagação mais rápida já registrada e mata uma pessoa a cada 30 minutos".
A 17ª epidemia da história congolesa surgiu em Ituri, no nordeste do país, e se espalha rapidamente pelas províncias do leste e nordeste, regiões marcadas pela fragilidade do Estado e pela precariedade da infraestrutura de saúde.
Medo e desconfiança dificultam o combate ao vírus
Um dos maiores obstáculos ao controle do Ebola é a resistência da população em buscar atendimento nos centros de tratamento (CTE). O irmão de Flavier Ngurima faleceu pouco antes de chegar ao CTE em Ituri, um dos principais epicentros da epidemia. "Nós chamamos uma enfermeira de confiança para atendê-lo em casa, já que tanto ele quanto seus familiares tinham medo de comparecer ao CTE. Diziam que muitas pessoas morrem lá", conta Ngurima.
Essa desconfiança não é um caso isolado. No território de Djugu, em Ituri, Jean-Paul Malo Lotsima, um líder local, explica que as pessoas acreditam "que se trata de um envenenamento ou de outras doenças". "Por isso, somente no último momento, quando a família observa que a situação piora, eles levam os doentes ao hospital. E às vezes, eles morrem no caminho", detalha.
Mohamed Janabi, diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a África, reforça o cenário preocupante ao afirmar que "mais de 70% das pessoas morrem na comunidade", e não nos CTE. Em Bunia, capital de Ituri, onde quase 90% dos casos foram registrados desde meados de maio, as medidas de combate à epidemia seguem mínimas. Pessoas continuam se aglomerando em mercados sem respeitar as medidas de proteção, segundo correspondente da AFP. "A participação da comunidade na resposta continua insuficiente", destaca Janabi.
Números alarmantes e comparações históricas
Os dados do surto atual são alarmantes quando comparados a outros episódios da doença. Segundo a Agência de Saúde da União Africana (Africa CDC), os primeiros meses deste surto provocaram sete vezes mais contágios e cinco vezes mais mortes do que os três primeiros meses da pior epidemia de Ebola da história, que afetou o oeste da África em 2014.
O país vizinho Uganda registrou 20 casos confirmados, incluindo duas mortes, mas anunciou em meados de julho que não havia mais casos ativos do vírus em seu território. Diante do cenário, a OMS declarou na última quarta-feira que espera reverter a tendência de alta da epidemia de Ebola na RDC em um prazo de três meses