Dorli Kamkhagi: ''O Convite: uma oportunidade para escutarmos nossas emoções''

Dorli Kamkhagi: ''O Convite: uma oportunidade para escutarmos nossas emoções''
Filme de Olivia De Wilde expõe, entre silêncios, fantasias e conflitos, as fragilidades que atravessam a conjugalidade e os vínculos afetivos
O filme O Convite, dirigido por Olivia De Wilde, conversa com o espectador de várias maneiras, convidando-nos a perceber diferentes nuances dentro da temática da conjugalidade e dos vínculos afetivos.
O filme nos mostra um casal que aparenta estar vivendo uma relação desgastada, na qual o convívio diário já não encontra espaço para que trocas e novas falas se organizem. Eles aparecem como ausentes de suas próprias vidas, nas quais cada um encontra um lugar no silêncio e nas falas não ditas.
A sensação que nos passa, ao assistir às conversas, é a de que aquilo que cada um, como indivíduo, talvez gostaria que o parceiro soubesse não consegue encontrar espaço para ser dito. Essas falas não ditas surgem em surtos de raiva, agressões e na aceitação daquilo que não é desejado.
É um misto de ironia, com leves traços de humor, que expõe cada um dos integrantes desse casal e a sensação de um certo des pertencimento diante do espaço que a conjugalidade poderia conter.
O filme decorre e se inscreve no convite ao casal que mora no andar de cima e que passa a existir por meio dos sons de uma vida sexual muito ativa e ruidosa.
Esses ruídos são um lembrete de que algumas pessoas ainda transam e vivem sexualidades fortes. Isso leva o nosso casal a se deparar com suas próprias fantasias e desejos, tão reprimidos e adoecidos.
A forma como os convidados aparecem e exalam algo de novo é muito forte, especialmente pela maneira como se mostram e sugerem um padrão repleto de sensualidade, fazendo aflorar muitas frustrações e desejos que não encontram um lugar para se colocar.
Entre acolhidas e dificuldades de receber os convidados e de se envolver nessa trama de um convite para que os desejos possam ser expostos e vividos, acaba ocorrendo um jogo erótico, no qual existe a descoberta de que as fantasias podem ser deslocadas para o outro.
Existe um movimento de aproximação e trocas sexuais, mas que acaba sendo interrompido.
Um dos participantes se sente preso e paralisado por uma dor.
O corpo da dor também é uma fala daquilo que negamos e queremos esconder, mas que reaparece como sintoma.
Aliás, os sintomas são sempre a manifestação de que algo não está bem e que, às vezes, acaba pedindo passagem. Ou quem sabe revelando outros significados.
Assim como o casal, os convidados, que parecem exalar perfeição, beleza e sensualidade, são interrompidos na interpretação desse papel de deuses da sedução.
No momento em que algumas dissonâncias surgem entre eles, um lugar de raivas e mágoas vai aparecendo. Algumas máscaras caem, e a fragilidade e a frustração tiram o brilho, mas colocam todos no nível daqueles que tentam entender e driblar as dificuldades que qualquer relação e vínculo afetivo nos convidam a sentir.
O filme traz uma força e uma magnitude exatamente por retratar essas fragilidades e dores. E por que não, também o estranhamento que os casais vivem?
Os do filme e nós.
E dentro do cenário desse apartamento, que tem histórias de outros que ali viveram e que deixaram marcas que impactam o casal, que só consegue escutar os seus próprios sons, as suas próprias dores, é cada um de nós como vivemos e pactuamos com os nossos relacionamentos.
Será que conseguimos ouvir e escutar?
Será que ousamos desnudar o medo e as incertezas de que já não somos mais vistos e desejados pelo outro?
Será que podemos abrir todos os cômodos e deixar que os fantasmas possam sair e começar a dar um lugar para um novo olhar?
E aceitar que a vida nos convida a mudanças e transformações, desde que possamos abrir os olhos.
A coragem de poder falar e sentir as nossas próprias imperfeições nos leva a abrir e sair de um lugar no qual estávamos prisioneiros, em nosso próprio cárcere privado.