Claudia Matarazzo: "Os Símbolos silenciosos do novo Luxo''

Claudia Matarazzo: "Os Símbolos silenciosos do novo Luxo''
Mais do que marcas e ostentação, o luxo contemporâneo valoriza experiências, repertório, relações verdadeiras e autenticidade
Temos ouvido falar do novo luxo, o já banalizado “Quiet Luxury”, e do quanto os símbolos de status se deslocaram e mudaram. Muita gente está confusa, tentando entender, afinal de contas, do que se trata essa nova modalidade de luxo. Ora, o luxo sempre foi relacionado a algo raro, precioso e caro. Isso não se discute. Porém, de algum tempo para cá, esses valores, que já eram intangíveis, ficaram ainda mais fluidos e, de uma forma contraditória, muito mais ligados à vida “presencial” do que à virtual, que tem nos invadido sem a menor cerimônia, sugando energia e beleza de nossos dias…
Explico: hoje, mais do que nunca, as amizades da vida real, e algumas da vida toda, têm sido valorizadas. Amigos de verdade, e não seguidores virtuais, com quem você possa viajar, passar tardes de domingo, jogar conversa fora sem hora para acabar… Esse tipo de relacionamento é raro e, mais raro ainda, é encontrar alguém com condições e sabedoria para cultivar e manter esse espaço precioso para alimentar a alma. Se você ainda tem a oportunidade de conviver com pessoas assim, é porque teve a sabedoria de jamais descuidar dessas amizades e hoje ainda tem condições de desfrutar delas. Luxo total.
Repertório: não basta ter acesso às coisas boas ou às experiências da hora. É preciso saber interpretar, comparar, fazer as conexões para aproveitar tudo isso plenamente. Não é como vestir uma roupa de grife e sentir-se “rico e poderoso”. Até pouco tempo, as pessoas achavam que isso era luxo. Na verdade, é apenas acesso. Que, como tudo no universo do luxo, pode ser restrito ou restringido caso não seja identificado com os códigos vigentes…
E que códigos são esses? Sustentabilidade, privacidade, empatia e visão social, valorização da cultura como um todo, com foco nacional e regional… Mais uma vez, os conceitos fluidos, que exigem dos recém-chegados a esse universo uma imersão e muito exercício para serem incorporados.
Engajamento digital: não estamos falando aqui de métricas e seguidores, mas sim de engajamento e influência real. O fato de você inspirar alguém de verdade e mobilizar pessoas que se identifiquem com o seu discurso ou com você mesmo. Se você trabalha e tem perfis virtuais, sabe o quanto isso vale. E não se consegue com tráfego pago nem com robôs, isso também já foi, e sim com… verdade. A sua. As pessoas percebem quando você é verdadeiro ou está apenas contando uma história triste.
Pois é: tem muita gente com saudade daquele pseudo luxo em que bastava vestir uma roupa com um logotipo de grife à vista, de preferência original, para ser aceito e admirado na roda. Não mais. O luxo de verdade não aceita atalhos: antes de nos abraçar, ele exige um trabalho de imersão, estudo, aprofundamento e lapidação de nossos hábitos. Porque apenas assim saberemos apreciar à altura o que ele nos oferece.
Para quem se dispõe a decifrar os novos códigos, garanto que vale a pena…