Alcolumbre e Lula retomam relação política e destravam pauta no Senado

Foto: Ricardo Stuckert / PR
Após meses de tensão, Lula e Alcolumbre se reuniram no Palácio da Alvorada para destravar pautas no Senado antes das eleições de outubro
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), retomaram a relação política nessa quarta-feira (12/8), em reunião de trabalho no Palácio da Alvorada, em Brasília. Após meses de tensão, os dois voltaram a negociar cara a cara às vésperas do início da campanha eleitoral, com interesses políticos em jogo. O encontro durou cerca de duas horas e teve como objetivo destravar pautas consideradas prioritárias pelo governo no Senado antes das eleições de outubro. A reunião também contou com a presença do ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, e da líder do governo no Senado, senadora Teresa Leitão (PT-PE).
A conversa foi classificada por Guimarães, em declaração a jornalistas, como "descontraída, tranquila, sem estresse" e, agora, "está tudo destravado". Segundo ele, a "institucionalidade está reconstruída", o que, afirmou, é motivo de comemoração. O encontro desta quarta deu continuidade ao diálogo iniciado na semana anterior, quando Lula e Alcolumbre se reuniram em um jantar na residência do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, em Brasília, no dia 4 de agosto. Nesta semana, as Casas Legislativas passam por um período de esforço concentrado, com sessões presenciais para deliberações e votações. Deputados e senadores terão apenas mais um período desse tipo antes das eleições gerais, entre 31 de agosto e 3 de setembro.
A intenção do governo, segundo o chefe da articulação política, é consolidar com Alcolumbre um diálogo semelhante ao que já está estabelecido com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). "Nós queremos que, sob a liderança da senadora Teresa, também no Senado fique 100% como está na Câmara", disse o ministro. Além de ter fortalecido a relação entre o Planalto e a Câmara, Motta declarou publicamente na segunda-feira (10/8) que apoia a reeleição de Lula à Presidência. O parlamentar paraibano, que tentará tanto a reeleição para deputado quanto um novo mandato no comando da Casa, aguardava o posicionamento do partido no nível nacional antes de declarar o apoio.
Na semana passada, o diretório nacional do Republicanos realizou convenção e decidiu pela neutralidade nas eleições presidenciais, liberando os diretórios estaduais para compor coligações conforme o cenário local. Em relação a Alcolumbre, o Planalto espera que o senador também apoie Lula. O líder do Senado já tem alinhamento com a chapa governista no Amapá, seu reduto eleitoral. "Independentemente aqui da pauta no Senado e das matérias de interesse do governo, nós temos uma chapa à reeleição do governador, a candidatura do senador Randolfe, e o Davi está absolutamente sintonizado com a reeleição do Lula e com o nosso palanque lá no Amapá", relatou Guimarães. Alcolumbre não disputará a reeleição ao Senado, pois está em meio de mandato, mas tem como meta a reeleição para a Presidência da Casa, prevista para fevereiro de 2027. Para isso, o senador busca manter o diálogo com diferentes grupos e construir apoio para permanecer no comando do Senado, independentemente do resultado das eleições presidenciais.
Uma eventual vitória de Lula tende a favorecer a articulação de uma base governista em torno de sua candidatura à Presidência do Senado, enquanto uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) tenderia a fortalecer o senador Rogério Marinho (PL-RN), que pretende se lançar ao cargo em 2027. Após o encontro, Alcolumbre afirmou que o diálogo entre os líderes foi restabelecido e que o movimento é "muito importante para a democracia". "Foi uma reunião institucional muito importante para a democracia, porque o presidente do Congresso precisa ter o diálogo aberto com o presidente do Brasil e esse diálogo foi restabelecido", disse.
A retomada da relação, no entanto, não garante o avanço de pautas prioritárias para o governo, como a PEC que acaba com a jornada de trabalho 6×1. Horas após Guimarães afirmar que "está tudo destravado", Alcolumbre disse que não há calendário definido para a tramitação da proposta. Também segue parada no Senado a chamada PEC da Segurança Pública, que busca redesenhar regras para o combate ao crime no país. O texto chegou à Casa em março deste ano e enfrenta resistência para avançar. Na terça-feira, lideranças governistas definiram o foco em uma série de medidas provisórias (MPs) para serem votadas durante a semana de esforço concentrado no Congresso. Entre os textos prioritários estão seis MPs, incluindo a que revoga a chamada "taxa das blusinhas".
O Congresso instalou cinco comissões mistas para análise das medidas, que tratam de temas como a regulamentação do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), dívidas rurais e o trabalho de motoboys. No caso da MP que zera o imposto sobre compras internacionais de até US$ 50, não houve acordo para a instalação da comissão, e a votação acabou sendo adiada. O governo corre contra o tempo para aprovar a medida e evitar que o texto perca a validade: se não for analisada até 8 de setembro, a MP caduca e o imposto poderá voltar a ser cobrado. Caso isso aconteça, pode trazer efeitos eleitorais ao petista, uma vez que a retomada do tributo foi uma das medidas que mais gerou desgaste à gestão.