Relatório do Cenipa aponta falhas em queda da Voepass que matou 62 pessoas

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Relatório do Cenipa aponta falha no sistema de degelo e distração dos pilotos como fatores no acidente da Voepass em 2024
O Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) divulgou nesta quinta-feira (23), em Brasília, o relatório final sobre o acidente com o avião da Voepass, que caiu em agosto de 2024 e vitimou 62 pessoas. O documento confirma que os pilotos conversavam sobre assuntos pessoais durante o voo e deixaram de acionar o sistema de degelo, mesmo diante dos alertas emitidos pela própria aeronave.
As conclusões foram apresentadas inicialmente em uma reunião reservada aos familiares das vítimas. Ao fim da tarde, o tenente-coronel Aviador Paulo Mendes Fróes, o brigadeiro Alexandre Avellar Leal, chefe do Cenipa, e o coronel aviador Raphael Vargas Vilar, chefe da Divisão de Investigação e Prevenção (DIP), concederam entrevista à imprensa.
Alertas ignorados e sistema de degelo desligado
Segundo Fróes, a aeronave acionou o alerta "electronic ice detector" diversas vezes, sinalizando acúmulo de gelo. Esse aviso deveria desencadear protocolos específicos, como mudança de velocidade e acionamento do sistema de degelo. No entanto, a gravação da caixa-preta revelou que o piloto Danilo Romano e o copiloto Humberto de Campos Alencar e Silva estavam envolvidos em conversas de cunho pessoal.
Às 13h11, quando a aeronave emitiu o alerta pela quarta vez, o copiloto comentou com o piloto que havia esquecido de ligar o sistema de degelo. "Então, o comandante comentou que ele poderia ligar todos os sistemas de-icing. O copiloto, então, questiona o que o comandante teria dito. E o comandante respondeu que já tinha ligado todos os sistemas de-icing. Porém, o sistema permaneceu desligado", relatou Fróes.
Um minuto depois, na quinta detecção de gelo, os pilotos continuaram conversando sobre assuntos pessoais. Fróes destacou que, "embora os tripulantes tivessem sido submetidos aos treinamentos exigidos" para operar a aeronave em condições de formação severa de gelo, "as ações observadas durante o voo do acidente não se mostraram condizentes com o nível mínimo de proficiência desejado", e não houve resposta adequada aos alertas.
Problemas pessoais e falhas anteriores não registradas
O Cenipa apontou ainda que o comandante enfrentava problemas pessoais que afetavam negativamente seu desempenho, desviando sua atenção dos alertas da aeronave. No entanto, tanto a conduta da tripulação quanto os problemas pessoais do comandante foram classificados pelo órgão da Força Aérea Brasileira (FAB) como fatores "indeterminados", ou seja, não é possível afirmar com certeza se essas questões contribuíram diretamente para a tragédia.
O avião da Voepass também havia apresentado falhas no sistema de degelo das asas em dois voos realizados na véspera do acidente, mas a tripulação responsável naquele momento não registrou o problema no diário de bordo. "A tripulação deveria ter relatado no diário de bordo essa falha para que a manutenção, após o pouso, pudesse verificar o que estava acontecendo com o sistema. O que a comissão verificou é que após o pouso em Ribeirão Preto, na noite anterior, essa falha não foi registrada no diário de bordo da aeronave", afirmou Fróes.
O relatório conclui que o acidente da Voepass não decorreu de um único erro, mas de uma combinação de falhas operacionais e de supervisão. Para o Cenipa, a companhia e o ambiente regulatório deixaram de aproveitar sinais de risco, e os mecanismos de monitoramento eram insuficientes.
Não houve registros de problemas no sistema de dispersão de gelo, chamado "airframe icing", nos voos anteriores da aeronave. Três tripulações diferentes ocuparam o avião nos dias que antecederam o acidente, e nenhuma apontou irregularidades. O documento cita ainda ausência de cultura organizacional para identificar erros de procedimento e falhas não relatadas pelos funcionários.
A aeronave também apresentava defeito no limpador de para-brisa, o que deveria ter impedido voos em condições de previsão de chuva. A investigação aponta, ainda, alta carga de trabalho e sobrecarga de estímulos, provocando "surdez" e "cegueira" por desatenção. Em nota, a Voepass informou que se manifestará posteriormente, após ter acesso à íntegra do documento do Cenipa.
Como foi conduzida a investigação
O Cenipa realizou dezenas de perícias para reconstruir o voo e compreender a sequência de eventos que resultou no acidente. Entre os procedimentos adotados estão a análise das duas caixas-pretas, a reconstrução completa do trajeto, exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol, análise das condições meteorológicas, entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes, além do estudo de mais de 15 mil voos realizados com a mesma frota.
A investigação do Cenipa tem caráter preventivo e buscou identificar os fatores que contribuíram para o acidente, sem apontar culpados. Em paralelo, a Polícia Federal conduz um inquérito para apurar se houve crimes e eventuais responsáveis pela tragédia. Após a conclusão desse inquérito, familiares das vítimas pretendem ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais.
A viúva do copiloto, Rosana Maria Ferreira, defendeu o marido da alegação de "erro humano" por conta das conversas pessoais durante o voo. Para ela, a parte humana de Humberto "falou bem mais alto" para "acolher" Danilo. "O que relataram é que eles estavam conversando sobre assuntos particulares exatamente quando estava pilotando, o que é extremamente normal os pilotos conversarem, eles não falam só de aviação, só da parte técnica do voo", ponderou.
Rosana salientou que 19 fatores contribuíram para a queda e que representantes do Cenipa teriam dito a ela que "os pilotos fizeram de tudo". "Recebi com muito carinho a fala de que o meu marido fez o que tinha de ter feito. Tudo o que poderia ter feito, ele fez. Só isso já ameniza, já bate o veredito final. Não, ele não teve culpa", afirmou.
O avião com 62 pessoas a bordo, sendo 58 passageiros e 4 tripulantes, caiu em um condomínio no bairro Capela, em Vinhedo, no interior de São Paulo. A aeronave era um bimotor de passageiros modelo ATR-72, que havia decolado de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos, na Grande São Paulo. Todas as vítimas foram retiradas dos escombros e encaminhadas ao Instituto Médico Legal paulista.