Embargo europeu à carne bovina do Brasil pode gerar prejuízo de R$ 2,6 bilhões

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Embargo da União Europeia a carne bovina, mel e pescados pode custar ao Brasil mais de US$ 500 milhões ainda em 2025
O Brasil pode perder mais de US$ 500 milhões em exportações caso entre em vigor, em 3 de setembro, o embargo aprovado pela União Europeia. O bloqueio, já ratificado pelo bloco, afeta as exportações brasileiras de carne bovina, mel e pescados, sob a alegação de que o Brasil não possui mecanismos de controle suficientes para monitorar o uso de antimicrobianos nessas cadeias produtivas. A Associação Brasileira da Indústria de Carnes (Abiec) estima perdas de US$ 504 milhões (R$ 2,6 bilhões) em exportações para o mercado europeu apenas até o fim deste ano. Se o embargo continuar em 2027, o impacto ultrapassaria US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões). No setor de mel, a Abemel (Associação Brasileira dos Exportadores de Mel) calcula que cerca de US$ 4 milhões (R$ 20,3 milhões) deixem de ser exportados para a União Europeia entre setembro e dezembro. O setor de pescados também seria afetado: a Abipesca (Associação Brasileira da Indústria de Pescados) aponta que o embargo pode impedir a entrada de até US$ 100 milhões (R$ 506,6 milhões) em receitas de exportação no próximo ano.
Embora a União Europeia afirme que o bloqueio está relacionado à fiscalização do uso de antimicrobianos, empresários dos setores afetados sustentam que a medida tem motivação protecionista. O sistema de defesa agropecuária do Brasil, ligado ao Ministério da Agricultura, possui um dos menores índices de rechaço do mundo — indicador que mede a quantidade de produtos recusados pelo país importador após inspeções sanitárias e de qualidade. No caso brasileiro, esse índice é próximo de zero. Segundo os empresários, a pressão política e de produtores locais da União Europeia pode ser a verdadeira razão para a medida. A carne bovina brasileira, por exemplo, tem ampla oferta e preços competitivos, o que pode gerar preocupação entre produtores europeus.
O presidente da Abipesca, Eduardo Lobo, ressalta que, no caso dos pescados, os antimicrobianos citados pela decisão da UE não são utilizados. "Nosso maior volume de exportação é a pesca extrativa, o produto mais natural que existe das águas oceânicas e continentais", afirma. O mesmo argumento é utilizado para o mel brasileiro exportado, descrito pelo setor como um produto orgânico e, portanto, livre do uso de antibióticos. Mesmo no caso da carne bovina, a União Europeia não apontou a presença desses antimicrobianos nos produtos exportados pelo Brasil. O argumento do bloco é que os mecanismos brasileiros de monitoramento e fiscalização não seriam suficientes para atender às exigências europeias. Na avaliação das entidades do setor, trata-se de uma questão de controle e fiscalização, e não de contaminação dos produtos.
Em 2025, as exportações de carne bovina para a União Europeia representaram 3,68% do volume exportado pelo setor, mas responderam por cerca de 6% da receita, com crescimento de 7,2% em relação ao ano anterior. O bloco concentra suas compras em cortes nobres de maior valor agregado, como filé mignon, contrafilé e alcatra. Os principais compradores europeus de carne bovina brasileira são os Países Baixos, que movimentaram US$ 382,8 milhões (R$ 1,94 bilhão) no ano passado, e a Itália, com US$ 374,2 milhões (R$ 1,90 bilhão). Espanha, Alemanha e Bélgica vêm na sequência. No setor do mel, a participação da União Europeia nas exportações gira em torno de 5%. Em 2025, as vendas para o bloco geraram um faturamento de US$ 6,2 milhões (R$ 31,4 milhões), com destaque para Alemanha, Países Baixos, Bélgica e Itália. No primeiro semestre deste ano, o faturamento com as exportações de mel para a União Europeia quase dobrou em relação ao mesmo período do ano passado: passou de US$ 3,18 milhões (R$ 16,1 milhões) para US$ 6,35 milhões (R$ 32,2 milhões).
O presidente da Abemel, Renato Azevedo, destaca que, para além do volume exportado, o bloqueio interromperia o trabalho de diversificação de mercado que vem sendo realizado. "Acaba sendo um balde de água fria nos esforços dos exportadores, que já estavam colhendo frutos de um trabalho de ampliação de mercado", afirma. O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre itens brasileiros é outro fator que amplia a preocupação com o possível bloqueio da União Europeia. Embora carne bovina, pescados e mel tenham ficado isentos das sobretaxas norte-americanas, a instabilidade que cerca a relação entre Brasil e Estados Unidos preocupa os setores que viam o mercado europeu como uma garantia.
Desde 2017, o Brasil está impedido de exportar pescados para a União Europeia por questões sanitárias. A reabertura do mercado europeu, porém, poderia acontecer em breve: após quase uma década de negociações e adaptações, a União Europeia realizou, em junho deste ano, uma nova auditoria em embarcações e indústrias brasileiras. Representantes do setor estão otimistas de que a auditoria resulte em um parecer favorável ao Brasil, com resultado esperado até o fim deste ano. No entanto, se o embargo entrar em vigor em setembro, a retomada das exportações de pescados para o bloco poderá ser comprometida.
A Abipesca estima um acréscimo de US$ 100 milhões (R$ 506,6 milhões) nas exportações em 2027 com uma possível reabertura do mercado europeu, o que representaria um crescimento de cerca de 30% para o setor, que atualmente exporta principalmente para China e Estados Unidos. "Se nosso setor viesse a ser habilitado agora, a gente ia ter um reflexo com a desabilitação logo em seguida", explica Eduardo Lobo. "Acreditamos que o governo e os setores afetados vão conseguir sanar e entregar à UE o cumprimento das exigências. O setor de pescados tem uma confiança muito grande na Secretaria de Defesa Agropecuária", acrescenta. Três dias após a ratificação da medida, em 6 de junho, o governo federal submeteu à União Europeia um novo plano de fiscalização de antibióticos. A próxima reunião do bloco, na qual o documento poderá ser avaliado, está prevista apenas para novembro, cerca de dois meses após o início do embargo. Até o momento, as autoridades europeias não apresentaram uma manifestação conclusiva sobre a documentação encaminhada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. No documento, o Ministério detalhou os mecanismos oficiais de fiscalização e as garantias oferecidas pelo governo para cada uma das cadeias produtivas abrangidas pela regulamentação europeia, incluindo carne bovina, carne de aves, ovos, mel e produtos da pesca, com o objetivo de demonstrar que o sistema brasileiro atende aos requisitos sanitários estabelecidos pelo bloco.