Adiantamento de pagamento de R$ 348 mi levou à demissão de ex-secretário de Zema

Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da ALMG debate sobre CGE que aponta irregularidades na Secretaria de Educação - Foto: Guilherme Bergamini
Adiantamento no cronograma do contrato de R$ 348 mi com a Fazer Educação acionou alerta que levou à exoneração de Rossieli Soares
Um adiantamento no cronograma de pagamento do contrato de R$ 348 milhões firmado para a compra de materiais didáticos destinados a escolas estaduais foi o gatilho que levou à demissão do ex-secretário de Educação Rossieli Soares.
Durante audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) nesta quarta-feira (1º de julho), o secretário de Estado da Casa Civil, Marcel Beghini, afirmou ter sido o autor da denúncia na Controladoria-Geral do Estado (CGE) e relatou como ocorreu todo o processo. Apesar de citar o cronograma como justificativa, ele foi cobrado pelos deputados estaduais, mas não apresentou o documento.
Conforme Beghini, o então secretário de Estado da Casa Civil, Luiz Otávio de Oliveira Gonçalves, teria recebido uma denúncia em dezembro de um potencial fornecedor de materiais didáticos. O representante comercial teria relatado que um suposto porta-voz de Rossieli Soares o teria procurado para "orientá-lo" a se associar a uma fundação pública e aumentar o percentual da margem de lucro para ter êxito em um processo de contratação da Secretaria de Estado de Educação.
Diante das acusações, Gonçalves procurou Beghini, que, na época, ocupava o cargo de secretário-geral de Minas. Os dois trocaram de posições em abril deste ano.
"No mesmo dia, eu liguei para a Corregedoria e fiz esse relato, pedi que fosse feita apuração preliminar para a gente entender se aquela denúncia teria plausibilidade", explicou Beghini. "Todos os dias chegam denúncias, é importante saber se haveria plausibilidade ou não."
Beghini detalhou sua versão dos fatos seguindo a linha do tempo das investigações sobre Rossieli Soares, apresentada anteriormente pela controladora-geral do Estado, Marcela Oliveira Ferreira Dias, em outra audiência pública realizada em maio.
Na ocasião, Marcela explicou que a denúncia foi registrada no dia 16 de dezembro de 2025. A partir das informações apresentadas, a CGE iniciou uma investigação preliminar para averiguar os fatos.
No dia 9 de janeiro, o órgão emitiu seu primeiro relatório preliminar, indicando a necessidade de aprofundamento no caso. O segundo relatório, que resultou na demissão de Rossieli Soares, foi apresentado pela CGE em 27 de abril.
De acordo com Beghini, inicialmente a CGE não havia identificado nenhuma contratação com as características descritas na denúncia. A identificação ocorreu em janeiro e estava relacionada ao contrato de R$ 348 milhões firmado com a Fazer Educação, no qual houve a execução de R$ 170 milhões.
A deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT) pontuou, assim como havia feito na audiência com Marcela, que o contrato foi assinado no dia 23 de dezembro de 2025 — ou seja, a CGE já havia recebido a denúncia quando o documento foi firmado.
O alerta que precipitou a demissão
Apesar desse contexto, o secretário de Estado da Casa Civil reforçou a posição de Marcela, de que as apurações iniciais ainda eram genéricas.
Segundo Beghini, o alerta no governo de Minas foi acionado quando houve uma tentativa de antecipar a execução do cronograma de pagamento do contrato. Ele afirmou que outros pagamentos estavam previstos apenas para o segundo semestre, o que levou o governo a monitorar as movimentações.
Em abril, a CGE identificou a tentativa de nova execução e alertou Beghini.
"Eu conversei com o governador (Mateus Simões), apresentei esses fatos e, no mesmo dia, ele tomou decisão de exoneração do Rossieli", relatou o secretário.
O contrato com a Fazer Educação foi suspenso em 18 de maio, conforme informado pela própria empresa.
Durante a audiência, Beghini também foi questionado sobre o motivo pelo qual o governo de Minas manteve o contrato mesmo diante das investigações em curso.
"Eu acharia um erro suspender o contrato, porque isso, no final das contas, é avisar para a pessoa que está sendo investigada que ela está sendo investigada. A postura do governo, já que havia cronograma de execução no segundo semestre, foi de monitorar aquele contrato.
Quando observou que ia ser feita uma execução fora do cronograma, esse foi o alerta necessário para que se procedesse com a exoneração do secretário", argumentou.
A declaração irritou a deputada Beatriz Cerqueira, presidente da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia.
Após a audiência, ela comentou as declarações do secretário e anunciou os próximos passos do colegiado.
"Eu quase me senti em um episódio dos Detetives do Prédio Azul, porque o governo sabia das irregularidades e optou por manter o contrato para o secretário não ficar sabendo que ele estava sendo investigado", ironizou.
"Nosso próximo passo é chamar a responsável da Secretaria de Educação pela execução e pagamento deste contrato."
A trajetória de Rossieli Soares no governo
Rossieli Soares foi nomeado secretário de Educação de Minas em julho de 2025. Ele já havia ocupado o mesmo cargo no governo João Doria (2019-2022) e foi ministro da Educação nos meses finais do governo Michel Temer (MDB). Antes de assumir a pasta em Minas, era secretário de Educação do Pará.
Durante a audiência pública, a deputada Lohanna França (PV) questionou como Rossieli Soares teria ingressado no governo mineiro.
"Qual é a história que deu respaldo para que esse cidadão virasse secretário de Estado de Educação? Alguém tem que contar, porque os senhores não podem ficar nesse conforto de dizer que ele foi exonerado e pronto, acabou."
O deputado estadual Gustavo Valadares (PSD), ex-secretário de Governo de Zema, saiu em defesa do ex-chefe do Executivo, afirmando que a escolha deve ter partido de razões pessoais de Zema à época, mas reconheceu que algumas decisões são "equivocadas".
"Todas as pessoas que trabalham comigo no gabinete, quando contrato, eu pressuponho que estejam dispostas a trabalhar pautadas na boa fé e no código de conduta, mas já tive problema com funcionários", exemplificou. "O risco existe, é inerente do servidor, de quem executa e de quem delega."
Valadares também citou um estudo que apontou o governo de Minas em terceiro lugar no ranking nacional de transparência, em defesa à gestão de Zema.
"Com relação a Rossieli, o currículo dele me pareceu bom. Ele chegou a ser ministro em 2018. Não é um currículo qualquer. É muito triste o que a gente está vivendo, estamos incomodados com isso, tenho convicção que o Simões está incomodado, o Zema, assim como os deputados que confiam neste governo. É um assunto espinhoso, mas é um risco que todos nós corremos", reforçou.
O caso segue em apuração, com a Comissão de Educação da ALMG anunciando novos passos para investigar a execução e os pagamentos do contrato firmado com a Fazer Educação.