Poupança perde R$ 39 bi no 1º semestre

Foto: José Cruz/Agência Brasil
Banco Central aponta 11º semestre consecutivo de perdas na Poupança, com déficit de R$ 39,3 bilhões entre janeiro e junho de 2026.
A Poupança registrou saída líquida de R$ 39,356 bilhões no primeiro semestre de 2026, segundo relatório divulgado pelo Banco Central. O resultado marca o 11º semestre consecutivo de perdas da aplicação, consolidando uma tendência de fuga de recursos que já dura anos. O déficit foi gerado por R$ 2,136 trilhões em novos depósitos contra R$ 2,175 trilhões em saques entre janeiro e junho deste ano. Apesar do resultado negativo, o desempenho foi 20,7% melhor do que o registrado no mesmo período do ano anterior, quando as perdas chegaram a R$ 49,6 bilhões.
Desde 2020, o déficit líquido acumulado da Poupança já ultrapassa R$ 366 bilhões. A última vez que a aplicação registrou captação positiva foi justamente naquele ano, quando os depósitos superaram os saques em R$ 166,3 bilhões — resultado inflado pelo Auxílio Emergencial, que era depositado diretamente nas cadernetas. Em junho, as perdas da caderneta somaram R$ 237,5 milhões, com depósitos de R$ 378,1 bilhões e retiradas de R$ 378,3 bilhões. O desempenho negativo reverteu a entrada líquida de R$ 2,6 bilhões registrada em maio, único resultado mensal positivo do ano. Apesar das perdas recentes, o saldo total da Poupança encerrou o primeiro semestre em R$ 1,02 trilhão, valor 0,1% abaixo do apurado há um ano (R$ 1,019 trilhão). Ao final de 2025, o montante era de R$ 1,022 trilhão, recuando para R$ 999,8 bilhões no primeiro semestre deste ano.
As aplicações na Poupança rendem 0,5% ao mês mais a TR (Taxa Referencial), percentual válido sempre que a taxa básica de juros estiver acima de 8,5% ao ano. Com a Selic atualmente em 14,25% ao ano e a TR oscilando próxima de 0% desde 2017, o rendimento da caderneta fica muito aquém de outras opções disponíveis no mercado. "Nesse cenário de Selic em dois dígitos, a diferença da Poupança para estas outras opções de investimentos é muito expressiva", afirma Gabriella Bridi, educadora financeira da Franq. Segundo ela, a rentabilidade faz com que a Poupança perca competitividade frente a investimentos conservadores como CDB, LCI e o Tesouro Selic, mesmo sendo vista como confiável pela população e tendo superado a inflação nos últimos anos.
Além da busca por maior rentabilidade, parte dos saques tem outra motivação. Bridi destaca que muitas retiradas foram feitas por necessidade financeira e não se converteram em novos investimentos. "Temos um cenário de endividamento muito duro e o custo de vida bastante salgado para algumas famílias que força esse comportamento", avalia a especialista. O cenário atual da Poupança reflete, portanto, uma combinação de fatores: juros altos que tornam outras aplicações mais atrativas e pressão financeira sobre famílias endividadas, que recorrem às reservas para cobrir despesas do dia a dia.