BC vai liberar o Pix Automático na conta-salário

Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil
Banco Central prepara regulamentação para liberar o Pix Automático na conta-salário e permitir agendamento de faturas sem transferências
Quem recebe salário em uma conta específica está prestes a ter uma facilidade que ainda não existe no sistema bancário brasileiro. O Banco Central prepara uma nova regulamentação para liberar o uso do Pix Automático diretamente na conta-salário, permitindo que o trabalhador agende o pagamento de faturas sem precisar mover o dinheiro para outra conta. A mudança promete eliminar uma etapa burocrática da rotina de milhões de brasileiros. Hoje, quem recebe em conta-salário precisa obrigatoriamente transferir os recursos para uma conta corrente tradicional antes de conseguir agendar pagamentos e evitar juros por atraso. Com a nova regra, esse intermediário deixa de ser necessário.
A conta-salário sempre teve funções mais limitadas do que uma conta corrente comum. Atualmente, o agendamento de cobranças recorrentes via Pix está disponível apenas para contas correntes e contas de pagamento, deixando de fora justamente quem recebe o salário nessa modalidade. Com a expansão desenhada pela autoridade monetária, isso deve mudar: quem utiliza a conta-salário poderá autorizar débitos automáticos diretamente no banco em que a empresa deposita a remuneração, sem depender de outra instituição. Para entender o tamanho da mudança, basta observar como funciona hoje. O trabalhador recebe o pagamento na conta-salário, mas precisa transferir o valor para outra conta antes de conseguir programar qualquer débito recorrente. Esse passo extra tem custo de tempo e de atenção: quem esquece de fazer a transferência no dia certo corre o risco de atrasar contas e pagar juros, mesmo tendo o dinheiro disponível. É exatamente essa etapa que a nova regra pretende eliminar.
A lista de despesas contempladas cobre boa parte do orçamento doméstico. Será possível quitar despesas periódicas como faturas de água, energia elétrica e internet diretamente da conta-salário, sem transferência intermediária. Os gastos com educação e saúde também entram: mensalidades escolares, academias, planos de saúde e seguros estão entre os pagamentos que poderão ser programados. Até assinaturas de serviços de streaming foram incluídas, ampliando o alcance da ferramenta para o consumo do dia a dia. Há uma previsão para a implementação, mas ela ainda não é definitiva. A mudança deve vigorar no segundo semestre de 2026. O calendário, porém, já sofreu um adiamento: o Banco Central chegou a anunciar, durante a 28ª Reunião Plenária do Fórum do Pix, em março, que a nova modalidade começaria a operar em julho, mas a estreia foi adiada e ainda não há data oficial para o lançamento.
Em nota, o Banco Central afirmou que "os trâmites de regulação ainda vão acontecer", sem apontar um novo prazo. O Pix Automático foi desenvolvido para modernizar e substituir o tradicional débito automático em diversas situações. As cobranças acontecem nas datas programadas após uma única autorização dada pelo cliente no aplicativo do banco, sem necessidade de repetir o procedimento a cada mês. A modalidade também dispensa os convênios bilaterais complexos e caros que as empresas prestadoras de serviço precisavam assinar individualmente com cada banco, tornando o processo mais barato para o comércio e mais padronizado para o consumidor.
Automatizar não significa perder o comando sobre o dinheiro. Mesmo com a automação dos débitos, o controle dos recursos continuará nas mãos do trabalhador. Cada autorização de pagamento recorrente dependerá do consentimento prévio do cliente, que poderá definir quais empresas possuem permissão para realizar os descontos. O usuário poderá gerenciar limites, consultar agendamentos ou cancelar os débitos quando quiser, pelos canais oficiais da instituição financeira. A preocupação com fraudes aparece de forma explícita no desenho da norma. Pelas regras em discussão, quando a empresa responsável pela cobrança não for autorizada a funcionar pelo Banco Central, deverão ser observadas exigências específicas.
As exigências buscam garantir a segurança das operações e a padronização do serviço, evitando que qualquer empresa possa debitar valores livremente. A medida busca evitar golpes e proteger o saldo de quem recebe o salário mensalmente, público que costuma ter margem financeira mais apertada. A mudança tem impacto direto em um comportamento muito comum entre os brasileiros. Hoje, uma parcela expressiva de trabalhadores utiliza a conta-salário apenas como um canal de passagem, transferindo todo o saldo de forma imediata para bancos digitais ou fintechs que oferecem mais serviços, deixando a conta-salário zerada logo após o pagamento. Ao ampliar as funções disponíveis, a iniciativa amplia a inclusão financeira dos cidadãos e simplifica a gestão do orçamento familiar. A novidade surge em um momento de atenção sobre o sistema brasileiro de pagamentos.
O Pix ganhou espaço fora do país e chegou a ser citado pelo governo dos Estados Unidos entre as justificativas para o novo tarifaço sobre produtos brasileiros. Enquanto a disputa externa trata do papel do sistema no mercado de pagamentos, a regulamentação da conta-salário é uma medida doméstica, voltada à rotina de quem recebe salário no Brasil. Assim que as normas forem oficialmente publicadas, os bancos e as demais instituições financeiras participantes do sistema de pagamentos terão um prazo para se adaptar, com necessidade de ajustes técnicos nas interfaces e nos aplicativos usados pelos clientes. A expectativa é que esse movimento inaugure uma nova fase de digitalização dos serviços bancários no país. Do fim da transferência obrigatória ao agendamento direto de água, luz, escola e academia, a chegada do Pix Automático à conta-salário promete simplificar a rotina de milhões de trabalhadores, desde que o Banco Central conclua a regulamentação, cuja estreia prevista para julho foi adiada e segue sem data definida.