Quase 65% dos mortos em operações policiais no Brasil são negros, mostra estudo

Estudo "Pele Alvo" revela que jovens negros são maioria entre as 4.330 vítimas da letalidade policial no Brasil em 2025
O estudo "Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã", lançado nesta quarta-feira (1º/7) pela Rede de Observatórios da Segurança em sua sétima edição, revela que 64,8% das pessoas mortas em operações policiais no Brasil em 2025 eram jovens negros de até 29 anos. A maioria dessas vítimas era moradora de periferias ou favelas, e o total chegou a 2.804 pessoas, incluindo 312 crianças e adolescentes.
Ao todo, 4.330 pessoas foram vítimas da letalidade policial em 2025, um aumento de 6,4% em relação ao ano anterior. Os dados foram fornecidos pelas secretarias de segurança de nove estados brasileiros: Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. A Rede de Observatórios é uma iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), dedicada a acompanhar políticas públicas de segurança, fenômenos de violência e criminalidade nesses mesmos estados.
O estudo "Pele Alvo" é publicado anualmente e se tornou uma referência no monitoramento da letalidade policial no país. Segundo os pesquisadores responsáveis pelo "Pele Alvo", na média dos estados monitorados, pessoas negras correm quatro vezes mais risco de serem mortas pela polícia do que pessoas brancas. Esse cálculo foi baseado nas taxas de mortes decorrentes de intervenção policial por 100 mil habitantes, calculadas separadamente para a população negra e branca. O relatório também chama atenção para a "opacidade e a qualidade" dos dados fornecidos pelas secretarias de segurança pública.
Os pesquisadores apontam que estados como Maranhão e Ceará utilizam a categoria "não informado" para ocultar o perfil racial de, respectivamente, 54,9% e 57,5% de suas vítimas. Sobre esse ponto, o instituto afirma: "A pesquisa comprova que, à medida que o governo estadual qualifica a coleta e preenche os dados corretamente, o recorte racial fica ainda mais nítido, sendo a falta destas informações não apenas uma falha burocrática, mas uma omissão que insiste em invisibilizar o recorte racial da letalidade estatal".
Outro aspecto destacado pelo "Pele Alvo" é a reconfiguração da dinâmica da letalidade policial diante da expansão de facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) em direção às regiões Norte e Nordeste. De acordo com o relatório, esse cenário desencadeia "respostas governamentais baseadas exclusivamente na lógica da militarização e do confronto". Como consequência desse quadro, quatro estados registraram o maior número de mortes de suas séries históricas desde 2019: Ceará, com 200 mortes; Maranhão, com 142; Pará, com 632; e São Paulo, com 834. Os números reforçam o alerta trazido pelo estudo "Pele Alvo" sobre o aprofundamento da violência policial no Brasil.