Incêndios ameaçam qualidade do ar para final da Copa

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Incêndios no Canadá ameaçam qualidade do ar em Nova Jersey na final da Copa entre Argentina e Espanha
Lionel Messi e Lamine Yamal podem entrar em campo no próximo domingo para decidir quem manda no futebol mundial e se deparar com um adversário que nenhum drible ou proteção da Fifa é capaz de resolver: as mudanças climáticas. Uma imensa nuvem escura, produzida pelos incêndios florestais no Canadá, avançou sobre o Nordeste dos Estados Unidos e derrubou a qualidade do ar na região de Nova York. Em Nova Jersey, onde fica o MetLife Stadium, o ar já foi classificado como prejudicial para grupos sensíveis.
Se o cenário persistir, Argentina e Espanha disputarão a Copa do Mundo respirando fuligem. Mais de 80 mil pessoas são esperadas no estádio a céu aberto. Outras 50 mil devem acompanhar a final no Central Park, em Manhattan. Os jogadores estarão correndo por pelo menos 90 minutos enquanto uma multidão festeja ao ar livre, justamente quando as autoridades recomendam que a população reduza atividades físicas intensas e, se possível, permaneça em ambientes fechados. A esperança está no céu. A previsão indica chuva forte no sábado e a chegada de uma frente fria na manhã de domingo. A água pode derrubar parte das partículas suspensas, enquanto a mudança dos ventos ajudaria a empurrar para longe a fumaça restante.
Mas meteorologia não é obediente tal qual Gianni Infantino cancelando um cartão vermelho de um jogador dos EUA a pedido de Donald Trump. Hoje, os poluentes representam um risco real à saúde de atletas e torcedores. A combinação de fumaça e calor aumenta o estresse sobre pulmões e coração, o que pode exigir mais pausas para hidratação e resfriamento dos atletas. Para idosos, crianças e pessoas com problemas respiratórios, cardiovasculares ou imunológicos, a festa pode cobrar um ingresso adicional na forma de falta de ar, ardência nos olhos e mal-estar.
Incêndios fazem parte da dinâmica de muitas florestas canadenses e podem começar tanto pela queda de raios quanto pela ação humana. Historicamente, eram menos destrutivos do que as queimadas na Amazônia, onde o fogo não integra naturalmente o funcionamento da floresta úmida e costuma ser usado de forma criminosa para desmatar e abrir espaço a pastagens e lavouras. O aquecimento global, porém, está mudando esse processo. Invernos mais quentes, menos neve, derretimento precoce, ondas de calor e verões mais secos retiram umidade do solo e da vegetação. Com mais matéria orgânica pronta para queimar, o fogo ganha combustível, começa mais cedo, dura mais tempo, vai mais longe e se torna mais difícil de controlar.
Neste ano, as temperaturas deram ao terreno canadense semanas extras para secar antes mesmo do auge da temporada. Isso não significa que cada árvore em chamas possa ser atribuída isoladamente à crise climática. Mas a mudança do clima funciona como um atacante que recebe liberdade dentro da área: ela não começa necessariamente toda a jogada, mas aumenta brutalmente a chance de o desastre terminar no fundo da rede. São Paulo conhece bem esse roteiro. Nos últimos anos, colunas de fumaça vindas das queimadas na Amazônia e em outras regiões do país viajaram milhares de quilômetros, cobriram o céu da maior cidade brasileira e ajudaram a transformar o dia em noite.
O ar ficou denso e tóxico, lembrando que a fumaça não respeita divisas, fronteiras, discursos oficiais ou a fantasia confortável de que a destruição ambiental é problema de quem mora longe. Agora, as mudanças climáticas podem dar o ar — ou melhor, tirar o ar — de sua graça no evento esportivo mais assistido do planeta. E fazem isso justamente no país cujo presidente passou anos tratando o aquecimento global como uma invenção conveniente de adversários comunistas. Donald Trump retirou duas vezes os Estados Unidos do Acordo de Paris para limitar o aumento do aquecimento médio do planeta, abriu áreas à exploração de petróleo, gás e carvão e acelerou licenças para perfuração ("Drill, baby, drill").
Sua administração também atacou incentivos à energia solar e eólica, apresentadas pela própria Casa Branca como fontes não confiáveis. A ironia é redonda como uma bola: enquanto seu governo acelera a exploração dos combustíveis que alimentam a crise climática e combate a expansão de fontes limpas, o país corre o risco de apresentar ao mundo uma final de Copa disputada sob um céu sujo por incêndios agravados pelo aquecimento do planeta. Se a chuva vier, a Fifa respirará aliviada, Messi e Yamal poderão se preocupar apenas com a bola, e a TV e o YouTube venderão imagens de uma festa. A fumaça terá ido embora a tempo de não estragar o espetáculo. O problema é que lavar o céu por algumas horas não apaga os danos causados ao planeta — nem a postura de quem continua ignorando a gravidade da crise climática.