ALMG aprova lei que proíbe reconstituição de leite em pó importado

Foto: Guilherme Bergamini
Projeto de lei de Maria Clara Marra proíbe reidratação de leite em pó importado para venda como leite fluido em Minas Gerais
A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) aprovou, em 2º turno nesta terça-feira (14), o Projeto de Lei nº 2.160/2024, que proíbe a reconstituição de leite em pó importado para comercialização como leite fluido no estado. De autoria da deputada estadual Maria Clara Marra (PSDB), a proposta representa uma vitória estratégica para o agronegócio mineiro e segue agora para a sanção do governador. A medida surge em um momento de forte mobilização do setor leiteiro. Minas Gerais é a maior bacia leiteira do país, responsável por cerca de 24% da captação nacional, com produção aproximada de 9,8 bilhões de litros de leite por ano e movimentação de mais de R$ 18,1 bilhões anuais na economia estadual. A atividade, que sustenta milhares de famílias no campo, vinha sofrendo pressão crescente diante da concorrência de derivados lácteos estrangeiros.
O objetivo central do PL nº 2.160/2024 é proibir a reidratação do leite em pó importado para venda em formato fluido. Com isso, busca-se conter a desvalorização do produto nacional e garantir que o leite líquido consumido em Minas Gerais seja, de fato, fresco e de origem local. Anteriormente aprovado em 1º turno na forma do Substitutivo nº 3, apresentado pela Comissão de Fiscalização Financeira e Orçamentária, o projeto retornou para avaliação da Comissão de Agropecuária e Agroindústria, sob a relatoria do deputado Raul Belém. O novo texto aprovado estabelece diretamente a proibição da prática de reconstituição de leite em pó importado para venda como leite fluido no estado.
O descumprimento da proibição sujeitará o infrator a sanções rigorosas, que incluem multa de até R$ 104.797 por infração, além da suspensão temporária ou definitiva do alvará de funcionamento do estabelecimento, assegurados o contraditório e a ampla defesa em processo administrativo. Em caso de escassez de leite fluido no mercado, deverá ser priorizada a reconstituição de leite em pó produzido no próprio estado de Minas Gerais. A restrição legal, no entanto, não afeta o consumidor doméstico. A proibição não se aplica ao leite em pó destinado diretamente ao uso residencial, vendido em embalagens próprias para o varejo e que atendam às normas de rotulagem estabelecidas pela Anvisa. "Minas Gerais é o maior produtor de leite do Brasil. Milhares de famílias dependem dessa atividade para gerar renda e movimentar a economia dos municípios. Este projeto busca proteger os produtores mineiros, fortalecer nossa cadeia leiteira e garantir mais competitividade para quem produz no Estado", destacou a deputada Maria Clara Marra.
A reação do legislativo mineiro acompanha um cenário de crise entre os produtores locais. Embora a produção tenha crescido, o ano de 2025 foi marcado por uma queda acentuada nos preços pagos aos pecuaristas nas propriedades, espremidos por custos de produção elevados e pela entrada maciça de lácteos importados acima da média histórica. A facilidade com que indústrias adquiriam leite em pó estrangeiro mais barato para reidratá-lo e vendê-lo como leite líquido pressionava as cotações locais para baixo de forma artificial, inviabilizando pequenas e médias propriedades.
A aprovação do projeto na ALMG ganha ainda mais relevância diante do cenário nacional. Recentemente, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) reconheceu oficialmente, por meio da Resolução Gecex 907/2026, a prática de dumping nas importações de leite em pó vindas da Argentina e do Uruguai. A decisão da Camex, fruto de uma batalha técnica de quatro anos liderada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e frentes parlamentares, autorizou a aplicação de tarifas de até 120% sobre o produto do Mercosul por cinco anos. Com a aprovação do PL nº 2.160/2024 e a iniciativa de Maria Clara Marra, o setor leiteiro mineiro avança em duas frentes simultâneas — estadual e federal — para proteger a produção local da concorrência desleal de importados e garantir a sustentabilidade de milhares de produtores no campo.