Marco Rubio acusa Lula de "não negociar de boa fé"

Foto: FMT
Secretário de Estado americano reforça viés político das tarifas ao Brasil, contrariando o tom técnico adotado pelo USTR
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, reforçou o caráter político atribuído pelo governo Lula à decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) de aplicar novas tarifas a produtos brasileiros. Em declaração nas redes sociais, Rubio responsabilizou diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelas taxas, divergindo do tom técnico adotado pelo USTR ao anunciar as sobretaxas. As novas alíquotas entram em vigor no dia 22 de julho e são resultado de uma investigação do USTR que acusa o Brasil de adotar práticas desleais de comércio que oneram os Estados Unidos.
Embora embasadas em critérios técnicos da Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana, o governo brasileiro acredita que há motivação política nas tarifas adotadas contra o país. A percepção do Palácio do Planalto foi reforçada pela manifestação de Marco Rubio nas redes sociais, que responsabilizou nominalmente o presidente Lula e o acusou de "não negociar de boa fé" com os EUA. "Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso", escreveu o secretário de Estado.
A declaração contraria o viés técnico apresentado pelo USTR para justificar as taxas e endossa o discurso do governo Lula de que as medidas têm interesses políticos, com o objetivo de pressionar o cenário eleitoral brasileiro, cujas eleições ocorrem em outubro. Nos bastidores do Planalto, o tarifaço já vinha sendo atribuído a interesses políticos da Casa Branca, diante da falta de avanço nas negociações. O governo federal também alega que nenhuma das explicações apresentadas pelos negociadores brasileiros foi levada em consideração pelo órgão norte-americano durante mais de um ano de negociação. Nesta quinta-feira (16/7), ministros do presidente Lula externaram essa percepção em declarações públicas.
O chanceler Mauro Vieira afirmou ver "expressa motivação política" nas decisões dos EUA desde o ano passado, quando a Casa Branca anunciou tarifas de 50% contra o Brasil. "Após a carta do presidente Trump ao presidente Lula, de 9 julho de 2025, as tarifas foram elevadas a 50%, por expressa motivação política, em tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro. E foi justamente nessa carta em que o presidente Trump ameaçou o Brasil com tarifas de 50%, caso o processo contra o ex-presidente da República não fosse imediatamente interrompido", declarou Vieira em pronunciamento no Palácio Itamaraty, em Brasília.
O Executivo brasileiro avalia ainda que a medida pode representar uma tentativa de ingerência no cenário interno às vésperas da eleição presidencial, além de reforçar interesses de natureza ideológica na condução da política externa norte-americana. Marco Rubio é responsável por conduzir a política externa da gestão Donald Trump e é apontado como a ponte da família Bolsonaro com a Casa Branca.
Sob sua condução, o Departamento de Estado tem direcionado atenção para a América do Sul, aproximando-se de governos alinhados ideologicamente a Trump enquanto faz críticas a políticos progressistas. No Brasil, Rubio estabeleceu ainda uma linha direta com a família Bolsonaro e com figuras da oposição que vivem nos Estados Unidos, como o jornalista Paulo Figueiredo. A declaração de Marco Rubio diverge de manifestações recentes de Jamieson Greer, que dirige o USTR e conduziu as investigações contra o Brasil.
Em entrevista na quarta-feira (15/7), horas antes do anúncio das taxas, Greer afirmou ter tido "intensas negociações" com o governo brasileiro. "Eu tive uma videochamada com minha contraparte no Brasil ontem a noite, foi muito cordial… Nós tivemos intensas negociações com eles, mas ainda acho que há muitas lacunas entre a gente, então provavelmente temos que adotar algumas ações, mas acho que continuaremos conversando", disse.
O governo brasileiro busca refutar as declarações de Marco Rubio ao afirmar que, ao longo do último ano, foram realizadas mais de 30 reuniões com autoridades americanas para negociar as tarifas. Os encontros ocorreram em diversos formatos, em níveis técnicos e ministeriais, além do encontro entre Lula e o presidente Donald Trump. Dados obtidos pela reportagem contabilizam 11 reuniões ministeriais com Jamieson Greer, que chefia o USTR, e com o próprio Marco Rubio, o que contradiz a narrativa de que o Brasil não teria negociado de boa fé.