Lula diz que não vai proteger o filho em investigação da PF

André Mendonça autorizou investigação autônoma sobre Lulinha por suspeitas de corrupção e tráfico de influência no setor de cannabis medicinal
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça autorizou a Polícia Federal (PF) a instaurar um novo inquérito para investigar Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A decisão foi tomada nesta quinta-feira (30/7), após a PF identificar indícios de corrupção e tráfico de influência envolvendo o empresário. A investigação aponta que Lulinha teria interferido em autorizações concedidas pelo Ministério da Saúde para a comercialização de cannabis medicinal no Brasil, com suposta atuação por meio de servidores públicos e até do gabinete da Presidência da República.
A suspeita de que Lulinha seria sócio oculto de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, motivou a PF a comunicar ao ministro André Mendonça, no fim do ano passado, que aprofundaria as investigações sobre o filho do presidente. Camilo Antunes é apontado como um dos principais responsáveis por desvios de aposentadorias e pensões, conforme apurado na Operação Sem Desconto. Os investigadores concluíram, no entanto, que os fatos relacionados a Lulinha não têm ligação direta com os desvios do INSS, o que levou ao pedido de abertura de um inquérito autônomo. Mendonça já havia autorizado as quebras de sigilo fiscal, bancário e telemático de Lulinha em janeiro de 2026, mas no âmbito da investigação sobre os descontos ilegais em aposentadorias e pensões. O filho do presidente não está entre os 48 primeiros indiciados naquele caso.
O próprio Lulinha admitiu, em documento protocolado no STF, que viajou a Portugal com despesas pagas pelo Careca do INSS para prospectar um negócio de cannabis medicinal. O negócio seria intermediado pela empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e responsável por apresentá-lo a Camilo Antunes. Ela recebeu pagamentos de R$ 1,5 milhão do empresário e declarou ter prestado serviços de consultoria para a regulação do mercado de cannabis medicinal no Brasil.
A relação entre o ministro André Mendonça e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, acumula tensões. O mal-estar teve início quando a PF trocou a coordenação da investigação do INSS sem avisar o ministro. O inquérito saiu da Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários e passou a correr na Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores, medida que desagradou o gabinete de Mendonça, que tinha apreço pelo delegado Guilherme Figueiredo Silva. Mendonça chegou a cobrar da PF a conclusão, em até 60 dias, da análise de materiais apreendidos no caso, como celulares, discos rígidos e pen drives. Em encontro com jornalistas no dia 3, Andrei Rodrigues afirmou que ainda havia 60% do material coletado desde abril de 2025 para ser analisado. "A operação Sem Desconto já teve nove fases, 419 mandados de busca e apreensão deflagrados, 27 pessoas presas e cerca de 40% deste material foi analisado", argumentou.
O advogado Marco Aurélio de Carvalho, que representa Lulinha, afirmou que a defesa recebeu a decisão de Mendonça com "absoluta tranquilidade", mas também com "perplexidade". "Se o Fábio não fosse filho do presidente Lula, o inquérito anterior já teria sido arquivado e este sequer havia sido instaurado, porque não há elementos que justifiquem", apontou. Marco Aurélio considerou "estranha" a instauração do novo inquérito e citou a expressão "pesca probatória". "Importante dizer que o presidente Lula devolveu as instituições de Estado à sociedade brasileira, notadamente a Polícia Federal, que tinha sido capturada pelo governo anterior por interesses políticos e eleitorais. A PF recuperou a independência e autonomia que são determinantes para a manutenção da credibilidade da instituição, mas ela precisa usar com responsabilidade. É estranha a notícia sobre a instauração de novo inquérito, a impressão que passa é que a Polícia Federal está promovendo uma espécie de pesca probatória. "Não achei nada aqui e vou procurar ali". Isso é muito grave. Não acharam nada do Fábio no bojo das investigações do INSS, como não vão achar em relação a esses fatos", afirmou.
O presidente Lula declarou, ainda na quinta-feira, que não utilizará o cargo para proteger Lulinha caso ele seja investigado e julgado. Em entrevista ao podcast "Inteligência Ltda.", o petista foi enfático ao afirmar que o filho será tratado sem privilégios. "Se meu filho for acusado de qualquer coisa, ele será tratado como o filho de qualquer pessoa. Como eu. Não haverá qualquer privilégio. Jamais pedirei para um juiz não fazer a coisa correta. Se ele tiver certo, vai ter ajuda minha. Se fizer coisa errada, não vai ter. Ele sabe o que eu passei. Sabe o que é ver na TV te chamarem de ladrão. Sabe que minha mulher morreu por causa da Lava Jato. Ele não tem o direito de errar", disse o presidente. Lula acrescentou que o filho não ficará escondido. Lulinha reside atualmente em Portugal. A abertura do novo inquérito marca uma nova fase nas investigações que envolvem o empresário e as suspeitas de interferência no mercado de cannabis medicinal no país.