Jovem de 18 anos fica sem cirurgia após fechamento de hospital em BH

Jovem aguarda há 18 dias pela retirada de fixadores externos após o fechamento do Hospital Maria Amélia Lins, em BH
Uma jovem de 23 anos aguarda há 18 dias por uma cirurgia de retirada de fixadores externos, situação diretamente ligada ao fechamento do Hospital Maria Amélia Lins (HMAL), em Belo Horizonte. Sem nenhum contato por parte das unidades responsáveis, a paciente segue convivendo com dores, limitações físicas e riscos cotidianos dentro de casa. A atendente Júlia Advíncula de Paula Magalhães sofreu um acidente de moto em 7 de abril, na avenida do Contorno, após passar mal enquanto conduzia o veículo. Com fraturas no punho e na pelve, ela passou por cirurgias e recebeu fixadores externos na região da bacia.
Ficou internada entre os dias 7 e 17 de abril e, desde então, realiza tratamento ortopédico. O punho já foi operado, mas a retirada dos fixadores da pelve ainda não tem data marcada. Segundo a mãe de Júlia, a técnica de enfermagem Thanna Advíncula de Paula, o procedimento deveria ter sido agendado após uma consulta prevista para 12 de julho. Ao chegar ao hospital nessa data, porém, a família encontrou a unidade fechada. "Eles simplesmente colocaram um porteiro na porta com um telefone. Ninguém avisou nada. Nem ligação, nem e-mail. Nós só descobrimos quando chegamos lá às 7 horas da manhã", afirma.
A família então procurou o Hospital João XXIII, onde Júlia passou por avaliação. A orientação recebida foi de que o hospital entraria em contato para agendar a cirurgia, mas esse retorno nunca aconteceu. Mãe e filha relatam que voltaram diversas vezes à unidade em busca de informações, sem obter qualquer previsão para o procedimento. Enquanto aguarda, Júlia enfrenta dificuldades para realizar atividades básicas do cotidiano. Ela dorme apenas de barriga para cima, tem dificuldade para subir escadas e permanece afastada do trabalho pelo INSS. Em casa, um irmão pequeno chegou a cair sobre os fixadores. Em outra ocasião, a jovem escorregou em um piso molhado e retornou ao hospital, mas, segundo a família, recebeu apenas orientação para continuar aguardando o agendamento. "Até quando ela vai esperar? Ela já passou do prazo para retirar esses fixadores e continua sofrendo", diz a mãe. A reportagem solicitou um posicionamento à Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) sobre a situação da paciente e aguarda retorno.
A crise no Hospital Maria Amélia Lins, referência em cirurgias de ortopedia e traumatologia em Belo Horizonte, teve início em 19 de dezembro de 2024, quando o bloco cirúrgico da unidade teve suas atividades interrompidas pela Fhemig, sob a justificativa inicial de obras de reforma e problemas em equipamentos. A interrupção coincidiu com o anúncio do governo de Minas Gerais sobre a intenção de terceirizar a gestão do hospital, transferindo a administração para uma organização social ou consórcio de saúde. A proposta desencadeou uma intensa batalha judicial e institucional envolvendo a Fhemig, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) e entidades de classe da saúde. Com o fechamento do bloco operatório, a rede pública da capital passou a enfrentar sobrecarga no Pronto-Socorro João XXIII e represamento da demanda por cirurgias ortopédicas.
Para tentar compensar a perda do serviço, a Fhemig remanejou cirurgias para outras unidades estaduais, como os hospitais Júlia Kubitschek e Cristiano Machado, além de ampliar o turno noturno no João XXIII. Contudo, denúncias do MPMG e auditorias do TCE-MG apontaram que essas unidades alternativas não tinham habilitação nem capacidade para absorver a alta complexidade do Hospital Maria Amélia Lins. A falta de planejamento resultou em multas da Corte de Contas à gestão da Fhemig. Em julho de 2026, o processo de terceirização avançou com a vitória da Santa Casa de Belo Horizonte no edital para assumir a operação da unidade. No dia 1º de julho, a Fhemig assinou um termo de permissão gratuita de uso do imóvel por cinco anos, concedendo à instituição filantrópica a posse do prédio e a responsabilidade pela gestão dos trabalhadores e do atendimento aos pacientes do SUS.
A proposta da Santa Casa prevê transformar o Hospital Maria Amélia Lins em uma unidade voltada integralmente para cirurgias eletivas, mas o perfil assistencial definitivo ainda depende de estudos técnicos e de pactuação com a Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. Uma decisão judicial de 28 de julho de 2026, no entanto, determinou a reativação imediata e integral do hospital sob responsabilidade direta do Estado e da Fhemig, trazendo nova incerteza ao processo. Em nota, a Santa Casa afirmou que acompanha os desdobramentos e aguarda a conclusão dos procedimentos judiciais para cumprir os compromissos assumidos no edital.