Hamas renuncia à administração de Gaza após quase 20 anos

Combatentes palestinos da ala militar do Hamas
Movimento islamista encerra administração de quase 20 anos em Gaza e abre caminho para comitê de tecnocratas assumir o território
O Hamas anunciou nesta segunda-feira (6) a dissolução do órgão que governou a Faixa de Gaza por quase vinte anos, abrindo caminho para que um comitê de tecnocratas assuma a administração do território. A decisão representa uma mudança política significativa para o movimento islamista palestino, que controlava a região desde 2007.
O chefe do comitê de emergência governamental, Mohammed al-Farr, "apresentou oficialmente sua renúncia", informou à AFP Ismail al-Thawabta, chefe do gabinete de imprensa do governo do Hamas. Ele também "decidiu dissolver o comitê para facilitar a transição administrativa e governamental para o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG, na sigla em inglês)", acrescentou al-Thawabta.
O NCAG foi criado pelo Conselho de Paz estabelecido pelo presidente americano Donald Trump durante as negociações que resultaram em um cessar-fogo entre o Hamas e Israel em outubro de 2025. O comitê, com sede no Cairo há vários meses, "está totalmente preparado para assumir suas responsabilidades nacionais assim que estejam disponíveis os recursos e capacidades necessários", escreveu no X seu presidente, Ali Shaath.
O Hamas assumiu o poder em Gaza em 2007 após confrontos com o Fatah, partido do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, sediada em Ramallah, na Cisjordânia ocupada. Alguns meses depois do início da guerra com Israel, desencadeada pelo ataque de 7 de outubro de 2023, o movimento afirmou estar disposto a ceder o controle do território a outra liderança palestina. Desde então, diversos cenários foram discutidos, mas a situação permaneceu estagnada.
"O Hamas dá um novo passo ao renunciar à administração da Faixa de Gaza para privar a ocupação de qualquer pretexto para continuar sua agressão e sua guerra de extermínio", declarou à AFP o porta-voz do movimento, Hazem Qassem. Um funcionário do alto escalão do Hamas, que pediu anonimato, disse à AFP que o movimento informou às outras facções palestinas sobre sua decisão durante uma recente reunião no Cairo e, segundo ele, todas a aprovaram.
Uma decisão "simbólica"
O cientista político Mkhaimar Abusada avaliou à AFP que se trata, antes de tudo, de uma decisão "simbólica". "O problema não é a dissolução do seu comitê governamental, e sim a aceitação de seu desarmamento (...) continua sendo o principal ponto de bloqueio", acrescentou. Um dos principais entraves ao avanço do processo é justamente o desarmamento do Hamas, que só considera essa possibilidade no âmbito de uma iniciativa política palestina. Israel se opõe a essa condição.
A primeira fase do cessar-fogo permitiu a libertação dos últimos reféns israelenses mantidos pelo Hamas em troca de palestinos presos por Israel. A passagem para a segunda fase, que deveria prever o desarmamento do Hamas e uma retirada progressiva das forças israelenses de Gaza, está há meses paralisada, enquanto Israel reforçou sua presença no território.
Israel descarta o retorno do Hamas ao poder, mas também se opõe, por enquanto, a que a Autoridade Palestina assuma o controle. Hamas e Israel se acusam mutuamente de violar o cessar-fogo.
Pelo menos 1.072 palestinos morreram na Faixa de Gaza desde a entrada em vigor da trégua, segundo o Ministério da Saúde do território, sob autoridade do Hamas, cujos números são considerados confiáveis pela ONU. O exército israelense registra seis baixas em Gaza no mesmo período: cinco soldados e um terceirizado.