Proibido de visitar o pai, Flávio tentar assumir comando da campanha

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Proibido de visitar Bolsonaro por 90 dias, Flávio terá de definir vice, montar palanques e recompor relação com Michelle
Proibido de conversar diretamente com o ex-presidente Jair Bolsonaro por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) terá de assumir sozinho o comando da própria campanha e fechar os palanques estaduais do Partido Liberal pelo Brasil. A restrição vale por 90 dias, período que se estende até 11 de outubro, uma semana após o primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro. Sem poder consultar a principal liderança do bolsonarismo, Flávio Bolsonaro precisará conduzir decisões que definirão o formato da campanha.
Entre elas estão a indicação do candidato a vice-presidente, a montagem dos palanques estaduais, a estratégia de viagens pelo país e a tentativa de recompor a relação com Michelle Bolsonaro. A definição da vice ocorrerá justamente durante o período de afastamento, já que o PL pretende lançar a candidatura de Flávio no dia 25 de julho.
Na quinta-feira (16/7), Flávio Bolsonaro realizou uma transmissão nas redes sociais para lançar o programa Brasil por Elas, ao lado da ex-presidente da Caixa Daniella Marques, coordenadora econômica da pré-campanha e um dos nomes cotados para a vice. A participação de Daniella na live reforçou o espaço que ela ocupa na pré-campanha. Além de coordenar o Brasil por Elas, ela está entre as mulheres avaliadas para compor a chapa, já que Flávio tem declarado preferência por uma mulher no posto. Durante a transmissão, Daniella falou sobre políticas para mulheres e associou as propostas ao legado econômico do governo Bolsonaro. Segundo os participantes, o Brasil por Elas reúne medidas nas áreas de segurança, combate à violência doméstica, mercado de trabalho, acesso ao crédito, empreendedorismo, economia do cuidado, saúde da mulher e apoio às famílias atípicas. Daniella Marques, porém, não é a única cotada para o posto.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS) é defendida publicamente pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e já foi classificada pelo próprio Flávio Bolsonaro como um "sonho de consumo" para a vaga. A deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) também figura entre os nomes cotados, com apoio principalmente da base mais identitária do bolsonarismo, incluindo o ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
Às vésperas do início do prazo para a convenção partidária, Flávio Bolsonaro enfrenta impasses para montar os palanques eleitorais em Minas Gerais, Amapá, Pernambuco, Alagoas e Maranhão. Em Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país, a principal possibilidade ventilada é a candidatura do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), que vem adiando repetidamente a decisão sobre concorrer ao governo estadual, pressionando o PL a buscar outras opções. Nos demais estados, a situação segue incerta, e aliados de Flávio já acreditam que ele ficará sem palanque nessas regiões. O PL marcou a convenção nacional para 25 de julho. Os partidos têm até 15 de agosto para registrar as candidaturas, e a campanha começa oficialmente no dia seguinte.
Além da impossibilidade de conversar com o pai, Flávio Bolsonaro também precisa administrar o desgaste provocado pelo conflito com a madrasta, Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama afirmou ter sido "humilhada" e "desrespeitada" pelo enteado e se afastou das atividades da pré-campanha. Publicamente, o senador tentou reduzir a dimensão do episódio, tratou a divergência como superada e fez gestos de aproximação, mas o embate passou a ser considerado um problema eleitoral por aliados. Pesquisa Genial/Quaest mostrou que 42% dos entrevistados concordam mais com Michelle no desentendimento, enquanto 18% ficam mais próximos da posição de Flávio Bolsonaro.
Outros 45% consideraram correta a decisão da ex-primeira-dama de publicar os vídeos em que expôs a briga familiar. Aliados do senador disseram reservadamente que Flávio ainda não conseguiu ir além da própria base bolsonarista e alcançar eleitores de centro-direita e de centro. A escolha da vice, a tentativa de recompor a relação com Michelle e a condução da campanha sem contato com Bolsonaro serão os primeiros testes da capacidade de Flávio Bolsonaro de assumir sozinho o comando político da candidatura.