Cuba é acusada de décadas de espionagem pelos EUA

Bandeira de Cuba
Departamento de Estado americano divulga relatório que detalha campanha cubana de infiltração e subversão por quase 70 anos
Os Estados Unidos acusaram Cuba, nesta segunda-feira (20), de conduzir uma campanha de "espionagem e subversão" em território americano por quase sete décadas. A acusação foi formalizada em um relatório divulgado pelo Departamento de Estado, representando mais um aumento da pressão do governo Trump sobre a ilha comunista, que enfrenta sua pior crise econômica em décadas. Segundo o documento, Cuba liderou "uma campanha que se infiltrou nos mais altos escalões do governo americano", além de recrutar e treinar "gerações de ativistas" e apoiar o "terrorismo de esquerda".
O secretário de Estado Marco Rubio, de ascendência cubana, considera insuficientes as recentes reformas econômicas lançadas por Havana. O relatório traça um histórico das tensões entre os dois países desde o triunfo da Revolução Cubana em 1959, inicialmente saudada por Washington. O contexto da Guerra Fria, no entanto, frustrou qualquer tentativa de relações pacíficas. Washington impôs sanções ao regime de Fidel Castro, que nacionalizou empresas americanas, e Castro respondeu estreitando laços com Moscou e o bloco comunista. A campanha de assédio mútuo se prolongou por décadas.
O governo dos EUA orquestrou diversas tentativas de assassinato contra Castro, enquanto Havana acolheu, treinou e apoiou movimentos guerrilheiros no Terceiro Mundo, especialmente na América Latina e no Caribe. O próprio Departamento de Estado reconhece no relatório que "Havana nunca teve capacidade para derrotar os Estados Unidos em um conflito armado convencional". "Em vez disso, os cubanos aperfeiçoaram um novo modelo para uma guerra de desgaste prolongada, organizada em torno de espionagem, infiltração, sabotagem, redes de aliados e uma infraestrutura revolucionária concebida para colocar os Estados Unidos contra si mesmos", afirma o relatório.
Trump indicou repetidamente que o governo cubano poderia ser o próximo, depois da Venezuela, a ceder à pressão dos EUA. Em junho, o presidente americano chegou a afirmar que Washington "assumiria o controle" da ilha caribenha, localizada a cerca de 145 km da Flórida, "quase imediatamente". Washington mantém um embargo contra Cuba desde a década de 1960, embora o tenha flexibilizado ao longo dos anos para permitir o fornecimento de produtos agrícolas e medicamentos. No início deste ano, após a deposição do presidente venezuelano Nicolás Maduro, Washington impôs um bloqueio de petróleo que colocou Cuba, já economicamente fragilizada, em uma posição ainda mais precária.
O relatório do Departamento de Estado resume anos de informações dos serviços de inteligência americanos, que também estiveram por trás de operações como a fracassada invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961. O documento não anuncia novas sanções ou medidas concretas, mas detalha uma longa lista de acusações contra organizações americanas ainda ativas, como a Rede Nacional sobre Cuba (NNOC, na sigla em inglês). Na semana passada, Rubio liderou um encontro internacional para combater o "ressurgimento do terrorismo político", que, segundo o governo Trump, é dominado pela extrema esquerda. O Departamento de Estado contabilizou a presença de 66 países nessa reunião em Washington, onde Cuba foi novamente denunciada como um Estado "patrocinador do terrorismo". Rubio defende que esse "terrorismo de extrema esquerda" voltou a ser a principal ameaça violenta não estatal no mundo, superando o jihadismo que dominou as duas décadas seguintes aos ataques de 11 de setembro de 2001. O relatório encerra com uma declaração contundente: "O ataque de Cuba aos Estados Unidos nunca foi, em essência, uma disputa sobre política econômica, soberania ou mesmo a posse de um território específico. Foi uma revolução contra a própria civilização ocidental".