Cirurgias eletivas têm fila de 6 mil no Sul de MG

Foto: Senado Federal/Reprodução
Pacientes relatam piora na saúde enquanto aguardam por cirurgias eletivas em Varginha, Passos e Poços de Caldas
Mais de 6 mil pacientes aguardam por cirurgias eletivas no Sul de Minas Gerais, e muitos relatam piora no estado de saúde enquanto esperam por procedimentos que, apesar de não serem emergenciais, podem se tornar urgentes com o passar do tempo. Nas três maiores cidades da região consultadas, a fila ultrapassa esse número, e casos individuais revelam o impacto humano dessa espera prolongada. Em Varginha, mais de 2.700 pessoas aguardam por procedimentos cirúrgicos. A aposentada Cláudia Fioravanti é uma delas: ela espera por uma cirurgia de catarata e, sem previsão de novos mutirões pelo sistema público, decidiu buscar atendimento particular. "Eu uso mais de 5 graus, só que agora começou a doer, doer, doer, doer, arranhar, arranhar, arranhar, e não enxergando nada. Eu não estou aguentando, entendeu? Está doendo demais, tomo muito remédio, tenho doença crônica e para fora eu não vou de forma nenhuma. Eu tenho medo, eu tenho medo de operar", relatou.
Em Passos, 1.788 pacientes estão na fila de espera. Já em Poços de Caldas, 1.516 pessoas aguardam por algum tipo de cirurgia eletiva. Nessa cidade, a maior demanda é por cirurgias vasculares, especialmente para tratamento de varizes, com 437 pacientes na espera. O secretário municipal de Saúde, José Gabriel Pontes Baeta da Costa, atribui o crescimento da fila à interrupção dos procedimentos em anos anteriores. "As cirurgias de varizes, pegando agora especificamente o caso da Secretaria Municipal de Saúde, nós tivemos um período significativo em que elas não foram sendo realizadas. Sobretudo no final de 2023, 2024, até o comecinho de 2025. Inúmeros fatores que perpassam desde a ausência de profissionais para estar fazendo esse procedimento, até mesmo algumas políticas públicas que foram sendo implementadas ao longo do caminho e hoje, graças também às políticas estaduais, do Valora Minas, política federal, do Aqui Tem Especialistas, Poços de Caldas tem conseguido avançar e é óbvio que é um número que a gente quer diminuir, mas que já vem aí sendo realizada semana a semana para garantir o atendimento dessas pessoas", afirmou. O cirurgião vascular Alberto Brasil Barbosa Duarte explica que as cirurgias eletivas são procedimentos programáveis, sem caráter de urgência imediata. "É uma cirurgia que a gente pode fazê-la com um certo planejamento, visando sempre a maior segurança do paciente, numa data agendada, que não caracteriza uma urgência ou uma emergência médica", explicou.
No entanto, o médico alerta que a espera prolongada pode transformar casos eletivos em emergências. "Nas cirurgias arteriais, principalmente, porque várias coisas podem desestabilizar o caso. Às vezes você pode transformar um procedimento que é eletivo, dependendo dos sintomas que o paciente apresenta, em uma urgência, emergência. As varizes são uma doença progressiva. Se a gente aguarda muito, o estágio dela vai piorando, a doença vai piorando e vai levando a maior sofrimento do paciente", disse. Outros pacientes também relatam dificuldades. A auxiliar de termalismo Cristiane Aparecida de Moraes Cândido aguarda por uma cirurgia vascular na perna e descobriu recentemente que também precisa de um procedimento para tratar a síndrome do túnel do carpo. "Esse exame é até bem complexo, é um exame até bem caro, o SUS não cobre e para a gente poder descobrir tem que fazer a eletromiografia. E essa cirurgia eu estou necessitada, porque ela vai atrofiando, o meu nervo não tem para onde crescer. E aí é o que eu estou aguardando lá. Já estou com meus exames pré-operatório prontos e estou aguardando a Secretaria de Saúde poder resolver o problema", contou.
A supervisora de recepção Mariana Ananias recebeu diagnóstico de endometriose em 2019 e, após anos de exames e consultas, teve indicação cirúrgica em junho do ano passado. Desde então, aguarda sem resposta sobre a realização do procedimento. "Não tem posição nenhuma. A gente tenta falar na Secretaria de Saúde, eles jogam para o PSF. O PSF já fez o trabalho dele, que é encaminhar o pedido cirúrgico para a Secretaria de Saúde. Essa cirurgia da endometriose me ajudaria muito, porque tiraria pelo menos essa dor que eu tenho na lombar, dor pélvica, dor na barriga, um inchaço na barriga, tudo isso. Então seria para uma melhora de qualidade de vida", afirmou. Em Pouso Alegre, a dona de casa Marilda Honório relata esperar há 13 anos por uma cirurgia no nariz, com impacto direto na sua qualidade de vida. "Eu não durmo direito, eu ronco muito, eu engasgo fácil, meu nariz vive sempre cortado, a aba inflama lá por dentro. Já faz 13 anos que eu estou correndo atrás. Está nas mãos da secretaria agora. Eles falaram que estão entrando em contato com o hospital para ver como vai fazer, que jeito que fica para fazer a cirurgia o mais rápido possível. O hospital não tem retorno, a Secretaria sempre fala que não tem retorno do hospital", disse. A prefeitura de Pouso Alegre informou que não tem controle da fila de espera e, por isso, não possui dados sobre os pacientes que aguardam por cirurgias eletivas, tampouco informou quais medidas pretende adotar para reduzir a demanda. A Secretaria Municipal de Saúde de Varginha também não respondeu ao contato da reportagem sobre ações em andamento para diminuir o tempo de espera pelos procedimentos.