Receita apreende 2 mil unidades de canetas emagrecedoras contrabandeadas em MG

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Receita Federal apreendeu quase 2 mil unidades em MG; especialistas alertam para riscos do uso de medicamentos sem registro na Anvisa
A Receita Federal em Minas Gerais apreendeu quase duas mil unidades de canetas emagrecedoras contrabandeadas nos primeiros seis meses do ano. Os medicamentos injetáveis, usados no tratamento de obesidade e diabetes, passaram a figurar entre os itens mais frequentes do mercado ilegal, ao lado de cigarros, celulares e veículos. Segundo o auditor fiscal da Receita, Diogo Vasconcelos, o crescimento nas apreensões desses medicamentos é expressivo. "A gente se depara com esses medicamentos cada vez mais dentro da nossa rota. Caneta emagrecedora hoje se apreende junto com celulares, perfumes. Todas as mercadorias que são contrabandeadas, você costuma encontrar medicamentos emagrecedores juntos", disse.
O problema não se restringe a Minas Gerais. Na última quinta-feira (9), a Polícia Federal deflagrou a Operação Perigosa Caneta, que investiga um esquema de importação e comercialização irregular de canetas emagrecedoras sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, após uma denúncia anônima indicando que um dos investigados vendia medicamentos sem autorização da agência reguladora. Os agentes buscam provas para esclarecer a participação dos suspeitos no esquema ilegal. Um levantamento da Scanntech aponta que o uso das canetas emagrecedoras cresceu 239% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior.
O estudo estima que 50% das doses em circulação no país podem ter origem em canais ilegais de comercialização, cálculo baseado na análise das vendas de seringas para aplicação de insulina.
Os medicamentos contrabandeados chegam principalmente do Paraguai, onde as leis sobre patentes são mais flexíveis. Por não terem autorização da Anvisa, esses produtos acabam sendo transportados de forma irregular, escondidos dentro de pneus e até canos de descarga. Com isso, as canetas emagrecedoras, que deveriam ser mantidas em ambiente refrigerado, chegam ao consumidor final em condições precárias. O alto preço dos medicamentos originais é um dos principais fatores que impulsionam o contrabando. O Mounjaro, da farmacêutica Eli Lilly, única caneta à base de tirzepatida com comercialização oficial autorizada, é encontrado entre R$ 1.580,31 e R$ 4.104,72.
Já os medicamentos à base de semaglutida, como Ozempic e Wegovy, da farmacêutica Novo Nordisk, que tiveram a patente quebrada em março, são vendidos entre R$ 1.077,79 e R$ 2.096,66. No mercado paralelo, esses mesmos produtos podem ser encontrados por menos de R$ 500,00.
O uso de medicamentos irregulares pode causar infecções sérias e danos a órgãos vitais. O doutor Mauro Jácome, especialista em gastroenterologia, endoscopia e cirurgia, relata que atende com frequência pacientes que utilizam canetas emagrecedoras por conta própria e de forma ilícita, apresentando complicações. "Essas medicações são de regulação médica. Ou seja, o profissional médico tem que prescrever para o paciente e isso é muito importante. O uso correto dessas medicações é o que evita o paciente de ter uma complicação, com dose correta e fonte segura.
O uso irregular sem acompanhamento médico sempre acaba em problema", disse. O especialista ressalta que até o encerramento do tratamento deve ser supervisionado por um médico, já que é necessário reduzir a dose gradualmente para controlar o peso antes da suspensão total da medicação. "De maneira nenhuma se deve usar uma caneta de fonte insegura. Procure um médico de confiança que ele vai prescrever de maneira correta", completou. Usuária das canetas emagrecedoras, a administradora Fernanda Fraga, de 39 anos, reconhece que o custo é um obstáculo para quem deseja iniciar o tratamento. Após perder mais de 20 quilos com o uso regular dos medicamentos, ela alerta para os possíveis efeitos à saúde que os produtos ilegais podem causar. "Eu sei que não é a realidade brasileira, não é todo mundo que pode ter isso. Mas é lembrar que pode trazer malefícios também, é importante ter esse acompanhamento e usar um remédio homologado pela Anvisa, que esteja dentro dos padrões para que não tenha nenhum problema. Pela questão do preço, não é fácil. A gente sabe que tem o mercado ilegal, mas vale o risco de usar um medicamento que pode trazer um malefício?", indagou.
O contrabando e a comercialização irregular das canetas emagrecedoras representam um risco crescente à saúde pública no Brasil. Enquanto o preço elevado dos medicamentos originais segue sendo um fator determinante para a busca por alternativas ilegais, especialistas reforçam que o uso sem prescrição e acompanhamento médico pode trazer consequências graves aos pacientes.