Decisão do cartão vermelho de Trump gera tempestade política em torno da Copa

Donald Trump e Gianni Infantino - Crédito: Mandel Ngan
Após ligação de Trump ao presidente da Fifa, Balogun teve suspensão revertida e joga contra a Bélgica, gerando crise de integridade no torneio
Por 24 dias, a Copa do Mundo de 2026 parecia ter alcançado algo raro: quase nenhuma relação com Donald Trump.
Mas, em uma reviravolta surpreendente, o atacante da seleção dos EUA, Folarin Balogun, foi autorizado a jogar na partida eliminatória contra a Bélgica nesta segunda-feira (6), mesmo após ter sido expulso no jogo anterior e recebido uma suspensão de uma partida — tudo isso após uma ligação do presidente americano ao chefe da Fifa.
"Obrigado à Fifa por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça! Presidente Donald J. Trump", publicou Trump no domingo (5) em sua rede social Truth Social.
Na segunda-feira, o presidente confirmou que havia ligado para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, pedindo a revisão da suspensão. "Eu não disse: "Você tem que fazer isso"", declarou Trump no Salão Oval, acrescentando que não achava que a infração de Balogun fosse sequer uma falta.
A absolvição de Balogun sacudiu o futebol mundial e desencadeou especulações sobre a relação próxima entre Trump e o chefe da Fifa. A ligação e a decisão final da entidade transformaram uma controvérsia arbitral em um incidente internacional que envolve a maior vitrine esportiva do planeta.
O episódio levanta preocupações sobre interferência política e a integridade do torneio. Não importa necessariamente se a pressão de Trump foi decisiva — a simples impressão de que foi já é suficiente para contaminar a percepção global de um evento que vinha gerando manchetes notavelmente positivas.
Controvérsias são parte da história da Copa do Mundo. Quem poderia esquecer o gol da "mão de Deus" de Diego Maradona pela Argentina em 1986, ou a cabeçada do astro francês Zinedine Zidane na final de 2006? Mas não há precedente conhecido de um líder político pressionando a Fifa sobre quem pode ou não jogar em uma partida, especialmente em uma tão decisiva para as chances de avanço de uma nação anfitriã.
A Real Associação Belga de Futebol afirmou que as manobras pré-jogo violaram os regulamentos da Fifa e prejudicaram o fair play. O treinador da seleção belga disse a repórteres que a federação agiria não para defender a honra nacional, mas para defender o "futebol em geral. Defende sua integridade. Defende sua ética". A federação acrescentou que estava contestando a escalação de Balogun e acusou a Fifa de falta de transparência na decisão.
As repercussões internacionais cresceram ao longo da segunda-feira. A Uefa, órgão regulador do futebol europeu, afirmou em comunicado que a suspensão da punição de Balogun ameaçava a reputação do torneio. "Quando a certeza das regras já não é garantida pelos seus guardiões, a integridade do jogo está em jogo e a credibilidade de uma competição é minada", disse a entidade.
O lance e a decisão da Fifa
Isoladamente, há argumentos razoáveis de que Balogun foi prejudicado quando foi expulso durante a vitória dos EUA sobre a Bósnia e Herzegovina. O árbitro não ordenou imediatamente a expulsão, mas, após revisão em vídeo, determinou que houve falta grave.
Em velocidade normal, o choque com o defensor bósnio Tarik Muharemović pareceu inofensivo. Desacelerada, a imagem mostrou o pé de Balogun descendo pela parte de trás da perna do adversário e torcendo seu tornozelo em uma posição preocupante.
Muitos torcedores argumentaram que Balogun foi mais uma vítima do sistema de VAR e que não havia intenção de lesionar Muharemović. Lances semelhantes ocorrem semanalmente nas principais ligas europeias e também resultam em expulsões. Por outro lado, é difícil compreender por que Balogun foi punido enquanto Lionel Messi escapou de um lance parecido na estreia da Argentina.
Após o jogo, a Fifa havia deixado claro que não havia possibilidade de apelação e que Balogun estaria indisponível para Seattle — um golpe enorme, já que o atacante do Monaco é o artilheiro da equipe.
O anúncio da reversão da suspensão no domingo ofereceu pouquíssimas explicações. O comitê disciplinar da Fifa invocou o Artigo 27 de seu código, que permite a suspensão total ou parcial de uma medida disciplinar sob um período de liberdade condicional. O cartão vermelho permanece em vigor e, se Balogun cometer outra infração, a suspensão será restaurada, junto com possíveis novas penalidades.
Não foi a primeira vez que a cláusula foi usada: anteriormente, ela permitiu que Cristiano Ronaldo jogasse nas rodadas preliminares destas finais, apesar de enfrentar suspensão por cartão vermelho em jogo de qualificação.
A relação entre Trump e Infantino
Era quase inevitável que Trump encontrasse uma forma de se inserir na Copa do Mundo, que ele comparou a múltiplos Super Bowls simultâneos. Ele é um fã de esportes dedicado e frequentemente usa o universo esportivo para impulsionar seus temas políticos — ou como fórum para exibir seu próprio poder.
No início do ano, Trump celebrou o triunfo da seleção masculina de hóquei no gelo dos EUA contra o Canadá nas Olimpíadas de Inverno como prova de que a América estava "vencendo novamente" sob sua liderança.
Uma fonte familiarizada com o assunto disse à CNN Internacional que Trump conversou com Infantino após o cartão vermelho de Balogun e pediu que ele revisasse a decisão. Os dois mantêm uma relação próxima, e o apoio do chefe da Fifa muitas vezes pareceu um endosso político direto ao presidente.
Infantino está frequentemente ao lado de Trump e até compareceu a uma cúpula de paz em Gaza, no Egito. Após o comício inaugural do segundo mandato de Trump, Infantino declarou no Instagram: "Juntos, faremos não apenas a América grande novamente, mas também o mundo inteiro".
O chefe da Fifa há muito enfrenta questionamentos políticos, incluindo acusações de abusos de direitos humanos na construção de estádios no Catar e pela decisão de conceder as finais de 2034 à Arábia Saudita. Os críticos ficaram ainda mais desconfortáveis quando Infantino concedeu a Trump o Prêmio Fifa da Paz inaugural, depois que o presidente americano não conseguiu ganhar o Nobel.
Infantino, por sua vez, argumenta que é fundamental para o chefe da Fifa manter laços cordiais com o líder de uma nação anfitriã — o que é especialmente notável considerando que o governo dos EUA foi peça central na exposição do maior escândalo de corrupção da Fifa em 2015.
Um precedente perigoso
Agora que o precedente foi aberto, a questão que paira é: quem pode garantir que outros líderes mundiais não pensem que também podem pressionar a Fifa por incidentes em campo? Cada lance controverso no restante do torneio passará por escrutínio enorme.
Se a Fifa invocou seus poderes para suspender a punição de Balogun, estaria agora moralmente obrigada a fazer o mesmo por jogadores de qualquer outra nação? Essa questão ganhou força na noite de domingo, quando o defensor da Inglaterra, Jarell Quansah, também foi expulso após revisão do VAR e agora enfrenta uma suspensão de um jogo.
Houve ainda outra grande história na Copa do Mundo no domingo: o Brasil foi eliminado do torneio graças a dois gols do atacante norueguês Erling Haaland.
O furor provocado pelo caso Trump-Balogun levantou o espectro de que eventos fora de campo possam alterar o destino do troféu que o próprio presidente deve entregar em duas semanas. Isso é uma pena para um torneio que, até então, oferecia uma distração bem-vinda para a política divisiva da América.