Brasil registra recorde de feminicídios, mostra Anuário de Segurança Pública

Foto: Freepick
Anuário de Segurança Pública aponta queda de 54% em adolescentes internados em 9 anos e recorde de feminicídios em 2025
O número de adolescentes cumprindo medida socioeducativa em meio fechado no Brasil caiu 54% em nove anos, passando de 26.450 em 2016 para 12.203 em 2025, conforme aponta o Anuário de Segurança Pública divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A taxa nacional registrada em 2025 foi de 50,7 adolescentes por 100 mil habitantes na faixa etária entre 12 e 20 anos. Apesar da queda acumulada ao longo da última década, o ritmo de redução vem perdendo força. Depois de cair ano a ano desde 2016, o número de adolescentes em meio fechado estabilizou nos dois últimos levantamentos: houve alta de 2,5% entre 2023 e 2024 e de 1,2% entre 2024 e 2025.
Segundo o Anuário de Segurança Pública, essa variação poderia ser ainda maior caso Minas Gerais tivesse enviado seus dados de 2025 ao Levantamento Nacional do Sinase, o que sugere que a estabilidade recente pode estar mascarando um crescimento real. Por trás dos números agregados, o comportamento das medidas é desigual. Enquanto a internação — a modalidade mais restritiva — segue em queda (-44,5% entre 2018 e 2025, com estabilidade de -0,1% no último ano), a internação provisória e a internação sanção cresceram entre 2024 e 2025, com altas de 60,7% e 47,2%, respectivamente.
A semiliberdade também cresceu 34% no último ano, revertendo parte da redução acumulada desde 2018. O perfil dos adolescentes em meio fechado está bem delimitado: 93,4% são meninos, 73,7% se autodeclaram negros (pretos e pardos) e 76,1% têm entre 16 e 18 anos, segundo o Levantamento Nacional do Sinase 2025. Os atos infracionais mais frequentes são roubo (29,1%) e tráfico de drogas (27,9%), ligados à obtenção de renda e não a crimes violentos contra a vida. Os dados chegam em meio à retomada do debate sobre a redução da maioridade penal no Congresso Nacional, com a tramitação da PEC 32/2015, que prevê baixar para 16 anos a idade de responsabilização penal.
Para os pesquisadores do Fórum, a proposta ignora que adolescentes de 16 a 18 anos já respondem por mais de três quartos das internações no sistema atual — ou seja, já são punidos — e que o país reduziu pela metade o número de jovens em meio fechado na última década, abrindo espaço para investir em qualidade em vez de expansão de vagas. O Anuário de Segurança Pública de 2025 também trouxe uma série de outros dados relevantes sobre a violência no Brasil:
• Feminicídios em recorde histórico: Os feminicídios bateram recorde em 2025, contrariando a tendência de redução das mortes violentas como um todo. Em média, quatro mulheres foram mortas por dia ao longo do ano.
• Menor número de assassinatos desde 2012: O Brasil registrou 40.775 vítimas de homicídio, uma queda de 8% em relação a 2024 e o menor patamar desde o início do levantamento pelo Fórum.
• Violência contra a mulher em alta: Outros indicadores registraram crescimento, incluindo violências psicológicas (17%), stalking (30%), descumprimento de medida protetiva (17%) e ameaças (0,5%). O país teve três tentativas de feminicídio para cada crime consumado ao longo de 2025.
• Cidades mais violentas concentradas no Nordeste: As dez cidades mais violentas do país ficam na região Nordeste, metade delas na Bahia. Maranguape (CE) liderou o ranking pelo segundo ano consecutivo e foi o único município a superar a taxa de 100 mortes violentas por 100 mil habitantes.
• Santa Catarina assume menor taxa de mortes violentas: Com 7,6 mortes violentas por 100 mil habitantes, Santa Catarina tornou-se o estado com a menor taxa do país, posição que São Paulo ocupava desde 2014.
• Mortes por policiais aumentaram: Os registros de mortes cometidas por policiais cresceram 5% no ano passado, enquanto o número de policiais mortos caiu 3%.
• Abuso sexual infantil e bullying em alta: Os registros de produção, posse ou distribuição de conteúdos de abuso sexual infantil cresceram 25%. Já os casos de bullying e cyberbullying aumentaram mais de 60% entre jovens, após a criação de tipo penal específico em 2024.
• Sistema prisional próximo de 1 milhão: O número de pessoas no sistema prisional cresceu 6% e chegou a 964 mil. O estudo prevê que, mantida a tendência, o Brasil pode atingir 1 milhão de presos já em 2027.
• Armas e golpes digitais: O país conta com 2,1 milhões de empresas e pessoas autorizadas a ter armas, sendo 1 milhão com licença de CAC (Caçadores, Atiradores e Colecionadores) e 1,6 milhão de armas cadastradas. Três em cada dez armas estão com registro vencido.
Além disso, o Brasil registrou média de 95 celulares roubados por hora e 4 golpes por minuto ao longo de 2025. O Anuário de Segurança Pública de 2025 apresenta um panorama complexo: ao mesmo tempo em que o país avança na redução de homicídios e no número de adolescentes em meio fechado, enfrenta recordes de feminicídio, crescimento da violência digital e um sistema prisional a caminho de atingir a marca de 1 milhão de detentos.