Tarifaço contra Brasil pode ampliar dependência dos EUA da Ásia

Foto: Porto de Santos/Divulgação
Entidade avisa ao governo Trump que tarifas de 25% sobre produtos brasileiros ampliariam a dependência americana de fornecedores asiáticos
A Câmara de Comércio Americana (Amcham Brazil) emitiu um alerta formal ao Escritório do Representante Comercial da Casa Branca (USTR) sobre os riscos de aplicar tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.
Segundo a entidade, a medida produziria o efeito contrário ao desejado por Washington: aumentaria a dependência americana de fornecedores asiáticos, especialmente chineses, nos setores afetados.
Em documento encaminhado ao governo Donald Trump, a Amcham, que reúne cerca de quatro mil empresas instaladas no Brasil, demonstrou como a China já domina os mercados dos produtos na mira da Seção 301 contra o Brasil.
Mesmo considerando os bens incluídos na lista de exceção do tarifaço elaborada pelo próprio USTR, fornecedores chineses detêm 52,1% de participação nas importações americanas. Quando se somam os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) — como Vietnã, Tailândia e Malásia —, essa fatia sobe para 83,9%.
"Esses fornecedores alternativos mantêm grandes superávits comerciais com os Estados Unidos. Ao elevar as tarifas sobre os produtos brasileiros acima das aplicadas à maioria dos concorrentes, a medida proposta continuará desviando o fluxo de compras do Brasil — um parceiro confiável que, historicamente, mantém uma relação econômica bilateral equilibrada com os americanos — para economias que contribuem significativamente para os desequilíbrios comerciais dos EUA", argumentou a manifestação protocolada pela Amcham.
A entidade será representada na audiência pública do USTR pela consultora Kristina Rosales, figura de prestígio em Washington que atuou como porta-voz do Departamento de Estado e hoje trabalha no setor privado.
No documento, a Amcham reforça o argumento: "O aumento tarifário proposto corre o risco de reforçar padrões de abastecimento que ampliam a dependência americana de fornecedores asiáticos, especialmente da China, enquanto reduz as importações de um parceiro regional estratégico. Esse resultado conflita com os objetivos mais amplos de Washington de fortalecer a resiliência das cadeias de suprimentos e diversificar as fontes de abastecimento em setores estratégicos."
A Amcham também sustenta que o primeiro tarifaço já provocou uma queda expressiva na corrente de comércio entre Brasil e Estados Unidos. De janeiro a maio de 2026, o fluxo de exportações e importações entre os dois países representou apenas 11,2% de todo o comércio brasileiro. No mesmo período do ano anterior, esse índice era de 13,8%, e o pico histórico, registrado em 2019, chegou a 15,7% do intercâmbio comercial.
Diante desse cenário, a Amcham recomenda que Brasília e Washington optem pelo caminho da negociação, com possibilidades de avanço em áreas como propriedade intelectual, comércio eletrônico, cooperação regulatória e minerais críticos.