Brasil tem maior número de mortos por policiais, mostra Anuário

Brasil registrou 6.602 mortes por policiais em 2025, o maior índice em 14 anos; Amapá tem a maior taxa proporcional e Bahia o maior número absoluto
As forças de segurança do Brasil foram responsáveis pela morte de 6.602 pessoas ao longo de 2025, o equivalente a uma taxa de 3,1 mortes por 100 mil habitantes. Os dados foram divulgados no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública e apontam o maior índice de letalidade policial registrado nos últimos 14 anos. Em média, 18 pessoas morreram por dia em decorrência de ações policiais.
O crescimento da letalidade policial contrasta com a redução dos homicídios dolosos no país. Segundo o levantamento, esse tipo de crime caiu 9,8% na comparação com o ano anterior: o número de vítimas passou de 36.440, em 2024, para 32.914 em 2025. A violência policial foi a única estatística que piorou entre as cinco categorias que compõem as mortes violentas intencionais — grupo criado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública para refletir com mais precisão a violência no país, que inclui também homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e assassinatos de policiais. Assim, a redução da violência no país só não foi maior por conta da letalidade provocada por policiais. Em uma década — de 2016 a 2025 —, um total de 60.558 pessoas foram mortas pelas forças policiais no Brasil.
O ano de 2025 foi marcado pela operação policial com o maior número de mortos na história do país. Nas primeiras horas do dia 28 de outubro, cerca de 2.500 agentes de segurança foram mobilizados para uma ação nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, com o objetivo de cumprir 69 mandados de prisão em 180 endereços. Foram 122 mortos em cerca de 17 horas de confrontos praticamente ininterruptos, superando o Massacre do Carandiru de 1992. Entre as vítimas estavam cinco policiais. Moradores recolheram cerca de 60 mortos da mata durante a madrugada que se seguiu ao fim da operação. As condições em que esses homens foram mortos não foram totalmente esclarecidas até hoje, nove meses depois.
Os corpos foram deixados lado a lado na praça São Lucas. O Ministério Público do Rio afirmou ter identificado dois casos de "lesões atípicas" entre os mortos analisados. Em um deles, havia característica de disparo de arma de fogo a curta distância. No outro, o corpo apresentava lesão por arma de fogo disparada à distância e também ferimento por decapitação, "produzido por instrumento cortante ou corto-contundente". Promotores apresentaram ao menos oito denúncias envolvendo 19 policiais militares, com acusações que incluem peculato, violação de domicílio, insubordinação e uso inadequado de câmeras corporais.
Apesar de a operação com maior número de mortos ter ocorrido no Rio de Janeiro, o estado não está entre aqueles com aumento mais expressivo da letalidade policial. Segundo os dados do Anuário, as forças policiais fluminenses deixaram 798 mortos ao longo do ano — o que significa que a Operação Contenção foi responsável por quase 15% dessas mortes —, alta de 13% em relação a 2024. Com taxa de 4,6 mortos pela polícia para cada 100 mil habitantes, o Rio ocupa a sexta posição em letalidade policial proporcional.
O Amapá foi o estado com a maior taxa de letalidade das forças de segurança: os policiais deixaram 17 mortos para cada 100 mil habitantes, o mesmo índice do ano anterior. O Amapá foi também o estado mais violento do país, com taxa de 42,5 mortes violentas intencionais. Já as polícias da Bahia foram responsáveis pela morte de 1.570 pessoas no ano passado — 14 a mais do que em 2024 —, o maior número absoluto de mortes em todo o país. Embora as maiores taxas de crescimento da violência policial tenham se concentrado no Nordeste, o fenômeno se disseminou por todo o território nacional.
Apenas dez estados registraram redução nas mortes por intervenção policial, e dois tiveram estabilidade — justamente o Amapá e a Bahia, com as maiores taxas. Ou seja, uma maioria de 15 unidades da federação apresentou piora nos índices de violência estatal. Rondônia teve o aumento mais expressivo, ainda que sobre uma base pequena de mortes: foram 47 mortos pela polícia em 2025, ante 8 no ano anterior, alta de 485%.
Maranhão (alta de 84%), Alagoas (+54,6%), Sergipe (+32,6%) e Pernambuco (+31,7%) também registraram aumentos relevantes. Em São Paulo, que vive crescimento da violência policial desde 2023, foram 835 mortos por policiais no ano passado — alta de 2,5%, alcançando o índice de 1,8 mortos a cada 100 mil habitantes. O pesquisador Leonardo de Carvalho Silva, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, alertou para a relação entre violência policial e crime organizado em um dos textos publicados pelo Anuário: "Os elevados níveis de uso da força letal por agentes de segurança e a cooptação de agentes públicos pelo crime organizado não constituem problemas independentes".
Ele acrescentou que "corporações permeáveis à corrupção tornam-se menos capazes de controlar o uso legítimo da força, favorecendo a reprodução de execuções ilegais, fraudes processuais e obstrução de investigações". Os dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública reforçam que, enquanto os homicídios dolosos caem no Brasil, a letalidade policial segue em trajetória ascendente, com o Amapá e a Bahia no topo dos índices e a maioria dos estados registrando piora no cenário.