
Wilson Dias/Agência Brasil
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), negou irregularidades no contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG ligada a Karina Ferreira da Gama, dona da produtora responsável pelo filme "Dark Horse". A negativa ocorreu após a Polícia Civil deflagrar, na segunda-feira (1º), a Operação Wi-Fi, que cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços de Karina, da ONG, da produtora e também na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.
As investigações apontam suspeitas de desvio de dinheiro público, fraude na licitação e irregularidades na execução do contrato. Em coletiva de imprensa realizada após a entrega de unidades habitacionais no Centro da capital, Ricardo Nunes afirmou que a prefeitura apoia todas as investigações, mas garantiu que nenhuma irregularidade foi identificada até o momento. "Toda investigação vai ter todo apoio da Prefeitura de São Paulo. E, até o momento, nós não identificamos nada de irregularidade. Eu já pedi por duas vezes na última semana para poder rever todo o processo. E o que eu tive da minha equipe é a afirmação de que não existe absolutamente nada de errado dentro do processo de contratação", declarou o prefeito.
Ricardo Nunes defendeu o programa WiFi Livre SP, afirmando que sua finalidade era garantir que "a população pobre pudesse ser incluída" na conexão digital. Segundo ele, o chamamento público para o programa teve aval do Tribunal de Contas do Município (TCM). O prefeito também contestou os números apresentados pela Polícia Civil, afirmando que a prefeitura não pagou por 5 mil pontos de internet, como apontado nas investigações, mas por 3.200 pontos.
Outro ponto refutado por Ricardo Nunes foi a suspeita de superfaturamento no contrato com o ICB. A Polícia Civil apurou que o instituto cobrou R$ 1.800 por ponto de internet, enquanto a Prodam, empresa pública de tecnologia do município, cobraria R$ 230. O prefeito, no entanto, contestou esse valor. "Foi feita toda uma pesquisa de preço e ficava muito mais alto, ficava R$ 2 mil e pouco por ponto. Hoje, estamos pagando R$ 1.280. "Ah, a Prodam comprava R$ 200, R$ 300". Nunca aconteceu isso, não existe isso. Eu não sei de onde tiraram isso. Agora, nesse exato momento, dos 3.200 pontos, 3.083 ativos e 117 offline. O que é lógico. Entre 3.200 pontos você vai ter alguns offline, cai energia, quebra o aparelho. Isso aqui vai mudando todos os dias", afirmou.
Ricardo Nunes negou ainda qualquer direcionamento no processo de contratação, ressaltando que o chamamento público ficou aberto por 30 dias e que apenas o instituto de Karina apresentou proposta. O prefeito levantou a possibilidade de conotação política nas investigações, questionando o momento em que elas vieram à tona. "Durante 30 dias, nenhuma outra entidade quis participar. Ainda bem que essa entidade se propôs, dentro daqueles moldes de colocar pontos dentro das favelas, das comunidades. Ainda bem que ela participou e a gente pôde instalar e ter hoje 3.200 pontos dentro das comunidades", disse.
Em seguida, indagou: "Nós não identificamos até o presente momento nenhum processo. Eu acho que isso está mais por conta de que a pessoa que é dessa entidade, ela participa do filme do (Jair) Bolsonaro. Por que é que só agora veio essa questão?" O prefeito destacou ainda que a contratação do ICB pela prefeitura ocorreu em junho de 2024, enquanto a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme "Dark Horse", só comunicou à SPCine que faria gravações sobre Jair Bolsonaro na cidade em outubro de 2025.
Ricardo Nunes afirmou que "não existe relação por parte da Prefeitura de São Paulo" com o filme, e que "não há problema" no fato de Karina ser produtora do filme e, ao mesmo tempo, ter uma ONG prestando serviços à gestão municipal. "Qual o problema? Se eventualmente a questão é política, eu acho que é um erro grave. Eu acho que é um desrespeito à democracia. Se estão fazendo isso por conta do filme, aí eu acho grave. Aí eu acho que precisa ter um outro tipo de apuração. Se por acaso tem uma conotação política partidária, é grave. Eu acho que ninguém merece ser investigado porque ela tem uma preferência política A ou B", declarou. Documentos obtidos pelo GLOBO revelam que, na semana passada, a Polícia Civil de São Paulo solicitou à Justiça que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) forneça relatórios detalhados sobre as movimentações financeiras de Karina e de suas empresas.
A operação desta segunda-feira foi autorizada pela Vara de Garantias da 1ª Região Administrativa Judiciária (RAJ) da capital. No documento em que pede a quebra de sigilo bancário da empresária, o delegado Antonio Carlos Munuera Silveira, titular da 2ª Delegacia da Divisão de Crimes contra a Administração, argumenta que há "suspeitas de confusão patrimonial" e que recursos públicos do programa "WiFi Livre SP" podem ter sido desviados para a produção do filme por meio "das contas das empresas subcontratadas e das demais organizações sociais geridas pela investigada para a lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo".
O ICB foi contratado para instalar pontos de internet gratuita nas ruas, mas, por não ser uma empresa de tecnologia, subcontratou serviços com diversas empresas. As subcontratações somam R$ 98 milhões, incluindo R$ 36 milhões pagos à empresa Make One, R$ 30 milhões à UltraIP e cerca de R$ 12 milhões às empresas Complexys e Fast Future, que seriam pertencentes a um mesmo casal "associado à investigada Karina Ferreira da Gama". O valor gasto com a produção de "Dark Horse" também chamou atenção por superar o custo de produções nacionais recentes indicadas ao Oscar, como "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto". O delegado aponta ainda que a entidade não tinha "qualquer capacidade técnica para telecomunicações" e cobrou pelo serviço um valor muito superior ao praticado pela Prodam, que cobra R$ 230 por implantação por ponto e R$ 306 para manutenção mensal.