No Peru, campanha termina com empate e eleitorado dividido

Keiko Fujimori e Roberto Sánchez disputarão segundo turno da eleição presidencial do Peru - Fotos: Raul Sifuentes | Vasquez/Anadolu
Keiko Fujimori e Roberto Sánchez disputam segundo turno em meio a criminalidade crescente e empate técnico nas pesquisas
A candidata de direita Keiko Fujimori e o esquerdista Roberto Sánchez encerraram suas campanhas eleitorais diante de milhares de apoiadores, antes do segundo turno presidencial no Peru. A disputa ocorre em um cenário de alta criminalidade e instabilidade política, com os dois candidatos em empate técnico e cerca de um quinto do eleitorado ainda indeciso.
No último ato de campanha, Keiko Fujimori pediu votos para evitar o que classificou como "caos e retrocesso" no país. "Queremos um governo que nos traga paz, que restaure a ordem! Queremos um governo de confiança... Não vou decepcioná-los", declarou a administradora de empresas de 51 anos, que disputa a presidência pela quarta vez consecutiva.
Filha do ex-presidente autocrático Alberto Fujimori (1990–2000), ela prometeu uma postura firme contra a insegurança em um país que registrou aumento de 20% nos casos de extorsão notificados em 2025, em comparação com o ano anterior.
Entre apoiadores de Keiko Fujimori, o temor com uma possível vitória da esquerda era evidente. Mérida Delgado, de 65 anos, disse à AFP que temia que o Peru seguisse o caminho da Venezuela ou de Cuba: "Não podemos deixá-los vencer com o comunismo e o terrorismo".
Do outro lado, entre fogos de artifício e música andina, Sánchez, deputado e ex-ministro de 57 anos, prometeu "democracia" e atacou a adversária. "Será o fim do caos, o fim da "Sra. K", o fim dos assassinatos, da corrupção e da impunidade", declarou.
Durante todo o comício, Sánchez usava o chapéu de camponês recebido de presente do ex-presidente Pedro Castillo, atualmente preso por uma tentativa fracassada de autogolpe de Estado. "Abaixo a "mulher da máfia", abaixo o fujimorismo!", gritava o candidato.
Entre os apoiadores de Sánchez, a crítica ao legado da família Fujimori era direta. "Todos esses anos foram caóticos. Esta será a quarta derrota de Keiko. Vivi a era de seu pai, que foi marcada pela corrupção total", disse à AFP Cristina Sotomayor, administradora de 63 anos presente no comício.
Empate técnico e frustração política
A pesquisa mais recente, realizada cinco dias antes da votação, mostra os dois candidatos em empate técnico. O cenário reflete o cansaço de um eleitorado que assistiu a oito presidentes em uma única década.
O primeiro turno, marcado por falhas técnicas e denúncias de fraude e que contou com cerca de trinta candidatos, evidenciou a frustração generalizada com a classe política peruana. Juntos, Keiko Fujimori e Sánchez não conseguiram sequer 30% dos votos naquele turno.
Criminalidade como tema central
A violência urbana dominou o debate eleitoral. Lima registrou 23 homicídios por 100 mil habitantes em 2025, três vezes a taxa de cinco anos antes, segundo dados oficiais.
"O dia a dia no Peru pode ser aterrorizante: há muita criminalidade e muitos assassinatos. Extorsões, homicídios, cobranças de "taxas de proteção"...", relatou Raúl Porras, agricultor de 52 anos, durante o comício.
Sánchez se apresenta como a voz dos eleitores pobres e das áreas rurais, promete uma "mudança radical" e responsabiliza as elites e o Parlamento pela instabilidade. No encerramento de sua campanha, atribuiu a criminalidade à corrupção e anunciou medidas duras: "É por isso que vamos propor a "morte civil" para os corruptos", declarou, referindo-se a um plano para impedi-los permanentemente de exercer cargos públicos.
Apesar da turbulência política, a economia peruana mantém-se estável. O próximo presidente, porém, terá de governar com um Congresso dividido e enfrentar a profunda desconfiança da população em relação às instituições.
Cerca de 27 milhões de peruanos estão convocados a votar no segundo turno, em um país onde o voto é obrigatório.