Caso Henry Borel: Monique acusa Jairinho de ter matado a criança

Na foto, Monique Medeiros mãe de Henry Borel e ré acusada de participar da morte da criança • Divulgação TJRJ
Ex-vereador começa interrogatório após 8 dias de julgamento; Monique afirma acreditar que Jairinho matou o filho
O ex-vereador Jairinho começou a prestar depoimento por volta das 16h55 desta terça-feira (2) no Tribunal do Júri que julga a morte do menino Henry Borel, de 4 anos.
Segundo o advogado de defesa, Rodrigo Faucz, o réu não vai responder perguntas da acusação nem da juíza, limitando sua fala ao que considerar necessário para apresentar sua versão dos fatos.
O interrogatório de Jairinho ocorre após oito dias de julgamento marcados por depoimentos de investigadores, peritos, médicos, familiares e testemunhas ligadas ao caso.
Acusado de homicídio qualificado e outros crimes, ele terá a oportunidade de apresentar diretamente aos jurados sua versão sobre os acontecimentos que levaram à morte da criança, em março de 2021.
O depoimento de Monique Medeiros
Antes de Jairinho subir ao banco dos réus, a mãe de Henry Borel, Monique Medeiros, também ré no processo, prestou seu interrogatório a partir das 10h30 desta terça-feira (2).
Durante o depoimento, ela relatou episódios de agressão supostamente cometidos pelo ex-vereador contra a criança desde o início do relacionamento do casal.
Em vários momentos, Monique se emocionou e chorou, especialmente ao falar do primeiro dia de aula do filho.
A frase mais impactante do dia veio de Monique: "Hoje eu creio que foi o Jairo".
Segundo ela, na noite da morte do filho, em 8 de março de 2021, ela havia tomado um comprimido dado pelo então companheiro e foi acordada por ele já com a criança em estado grave.
"Pelo modus operandi dele, pelos filhos delas, eu acredito que pode ter sido ele", continuou, citando acusações de ex-namoradas de Jairinho sobre violências contra crianças.
Monique descreveu como encontrou o filho naquela madrugada:
"Ele estava com a barriga para cima e o pé gelado, e olhando para o nada".
Ela afirmou que Jairinho repetia que Henry não estava conseguindo respirar direito.
A criança foi levada ao hospital Barra D'Or, onde foram realizadas manobras de reanimação cardíaca por horas, mas o óbito foi declarado às 5h30.
Naquele momento, Monique disse acreditar que a morte só poderia ser explicada por um acidente doméstico:
"Ficaram duas horas e meia fazendo a massagem cardíaca. Não tinha nenhum sinal, nenhuma marca, então para mim só podia ser uma queda de cama".
Cinco anos depois, a mãe mudou de percepção.
Ao ser questionada sobre o que faria caso soubesse de agressões contra o filho, Monique foi categórica:
"Se eu soubesse de alguma coisa, eu estaria respondendo pelo homicídio do Jairo ou enterrada do lado do meu filho".
Monique afirma ter sido dopada por Jairinho
Monique declarou acreditar que foi dopada pelo ex-companheiro para que ele pudesse se comunicar com uma amante sem ser visto.
"Jairo sempre me dava comprimidos à noite, vi ele macerando um comprimido na minha taça de vinho. Ele fazia questão de fazer eu dormir para eu não ver que ele tinha uma outra pessoa", disse ela.
A ré também descreveu a relação com Jairinho como marcada por ciúmes e controle.
No início, ela interpretava esse comportamento como demonstração de afeto:
"Eu achava que o ciúme dele era amor, era carinho, era atenção, que eu não tive no meu casamento. Ele primeiro pediu meu localizador, que eu não achei nada demais. Depois disse pra eu bloquear todos os meus amigos homens das redes sociais. Ele também morria de ciúme do Leniel".
Ela acrescentou:
"Ele brigava muito comigo por causa do Leniel".
O controle se estendia até as roupas que Monique usava.
Em um episódio relatado por ela, foi à academia de short, mas mentiu para Jairinho dizendo que estava com uma calça legging.
"Ele me mandou mensagem e me perguntou: 'O que é isso aqui?', e era uma foto na academia de short. Ele brigou comigo. Eu achava que a errada era eu, que eu tinha mentido para ele".
Segundo Monique, Jairinho pedia desculpas depois e tudo voltava ao normal.
Monique chama babá de "grande mentirosa"
Monique negou que tenha ordenado à babá de Henry, Thayná Ferreira, que apagasse mensagens com alertas sobre possíveis agressões à criança, ocorridas em 12 de fevereiro de 2021.
"Eu tenho prova de que eu não mandei ela apagar as mensagens. Ela (Thayná) é uma grande mentirosa. Por que eu mandaria apagar os prints se eu tinha os prints do meu telefone? Isso nunca aconteceu".
Segundo Monique, a responsável por mandar apagar as mensagens teria sido Thalita, irmã de Jairinho.
Ela acrescentou ainda que várias pessoas da família da babá trabalhavam para a família do ex-deputado Coronel Jairo, pai do então vereador.
Ao negar que foi alertada pela babá sobre as agressões de Jairinho no dia 2 de fevereiro de 2021, Monique voltou a se emocionar:
"Ela falou que me contou no mesmo dia, e isso é mentira. Eu nunca ia deixar isso acontecer, eu nunca deixaria os dois juntos".
A babá e o episódio de tortura investigado
Monique narrou as mensagens trocadas com a babá Thayná Ferreira no dia 12 de fevereiro, quando teria ocorrido um dos episódios de tortura investigados pela polícia.
Naquela ocasião, Jairinho teria se trancado no quarto com Henry, que saiu cinco minutos depois mancando e reclamando de dores na cabeça.
Monique disse que Jairinho mentiu que havia chegado em casa apenas horas depois, enquanto a babá relatava a movimentação dele pela casa.
"Ela contou que o Jairinho tinha chamado o Henry para ver o que ele tinha comprado. O Jairinho sabia que não queria que ele ficasse sozinho com o Henry. E ela disse: 'Acho melhor você vir'", contou Monique.
Naquele momento, ela estava em um salão de beleza num shopping próximo ao condomínio Majestic, onde morava com Jairinho.
"Nunca imaginava que ele tinha sofrido uma tortura nesse dia, achei que ele (Jairinho) tinha feito comentários contra o meu filho, que era muito sensível".
Segundo Monique, a babá contou posteriormente que Henry disse que Jairinho "deu uma banda e chutou ele", dizendo ainda que a criança atrapalhava a mãe.
Episódios de agressão e traição
Monique relatou que, em novembro de 2020, cinco meses antes da morte de Henry, houve um episódio em que Jairinho teria agredido a criança.
"O Henry saiu correndo da sala e disse: 'Tio Jairinho me deu uma banda, me deu uma moca, falando que eu era bobalhão e mimado'. Ele disse que tinha só segurado ele pelos braços, passou a perna e ele nem tinha caído".
Após alguns episódios semelhantes, Monique afirmou que Henry passou por mudanças de comportamento, tornando-se mais triste, além de vomitar e tremer na presença de Jairinho.
"Se eu tivesse suspeita de tortura, agressão de qualquer coisa, eu não teria continuado nesse relacionamento", pontuou.
Ela afirmou ainda que tentou pedir ajuda a psicólogos, médicos e até ao ex-marido, mas ninguém identificou nada de concreto:
"Não tinha nada, ninguém falava nada. Como que eu ia descobrir? Era sempre quando eu não estava, sempre escondido".
Sobre os episódios de traição, Monique contou que logo no início do relacionamento recebeu uma mensagem de Débora, que afirmava também namorar Jairinho.
"Débora disse que estava num relacionamento com Jairo havia seis anos, e ele desmentiu ela. Eu acreditei nele, mas fiquei com o pé atrás. Ela começou a me mandar prints, dizendo que tinha batido nela, que ele a tinha perseguido. Eu não acreditei, e eu e Jairinho voltamos a namorar".
Monique também relatou que, em novembro de 2020, foi acordada por Jairinho a enforcando após uma crise de ciúmes:
"Ele pulou o muro da casa dos meus pais, acordou me enforcando, jogando o telefone na minha cara porque tinha visto mensagens do Leniel comigo. Ele tinha a minha senha. Eu não tinha a senha dele, e eu descobri que ele tinha outras mulheres enquanto estava comigo".
Outras crianças agredidas por Jairinho
Monique citou os casos de duas crianças que teriam sido agredidas por Jairinho, filhos de ex-namoradas dele.
No júri, Déborah Mello Saraiva e Natasha de Oliveira Machado relataram as agressões aos filhos e que também foram agredidas pelo ex-vereador.
Sobre essas crianças, Monique declarou:
"O Enzo é o Henry que sobreviveu. E considero a Kaylane uma sobrevivente".
Atualmente, Jairinho responde a dois processos na Justiça do Rio pelas denúncias de agressão contra essas crianças.
A relação entre Henry e Jairinho
Segundo Monique, Henry gostou de Jairinho em um primeiro momento, pois ele costumava presenteá-lo.
No entanto, ela passou a perceber uma mudança no comportamento do então companheiro após um episódio ocorrido no fim de janeiro, quando Jairinho teria dado um "abraço apertado" no menino.
"O Leniel (pai da criança) disse que o Henry relatou um abraço apertado do Jairinho. 'Eu quero que você fale para ele que não quero abraço no meu filho', e eu acatei o pedido do pai. Chamei o Jairinho, o Leniel disse que não queria mais abraço, e eles deram um aperto de mão amistoso".
Depois desse episódio e da agressão em novembro de 2020, Henry e Jairinho passaram a se afastar.
Durante o interrogatório de Monique, Jairinho foi retirado do plenário no início da sessão.
Posteriormente, quando ela afirmou acreditar que ele era o autor do crime, o ex-vereador voltou ao plenário.
A ordem dos interrogatórios e a fase de debates
Uma decisão da 7ª Câmara Criminal do Rio determinou que Jairinho só fosse interrogado após o depoimento de Monique.
O pedido foi feito pelos advogados Rodrigo Faucz e Alanis Matzembacher, que argumentaram que Monique acusa o ex-vereador de ter cometido o crime sozinho e, por isso, o depoimento dela antes do dele é essencial para que a defesa possa conhecer integralmente as acusações e se manifestar de forma adequada.
Antes do início do julgamento, o advogado de Monique, Hugo Novais, afirmou que ela não deixaria de responder a nenhuma pergunta:
"Monique vai responder a tudo que for perguntado, evidentemente que de maneira estratégica".
Segundo Novais, Monique foi levada a júri por machismo e misoginia:
"Por uma visão distorcida, por uma ótica de misoginia, de machismo, se atribuiu uma responsabilidade penal a uma mulher, pautado único, exclusivamente, num comportamento que se deveria ter, mas que não foi correspondido, dizendo que uma mãe foi ao salão depois do enterro do filho".
Após os interrogatórios dos réus, começam os debates entre acusação e defesa.
O Ministério Público e os assistentes de acusação terão entre 2h30 e 3h para apresentar suas teses.
As defesas terão período igual para sustentar seus argumentos, dividido entre as duas bancas.
Em seguida, a acusação poderá fazer uma réplica de até 2h, e as defesas terão direito à tréplica, também de até duas horas.
Somadas todas as manifestações, a fase de debates pode ultrapassar dez horas.
Ao final, os sete jurados do Conselho de Sentença responderão quesitos sobre materialidade e autoria dos crimes, formulados de forma distinta para cada réu.
A decisão será tomada por maioria de votos, e a juíza Elizabeth Machado Louro proferirá a sentença, estabelecendo a dosimetria das penas.
22 testemunhas ouvidas ao longo do julgamento
Até a segunda-feira (1), 22 testemunhas foram ouvidas: 13 de acusação e 9 pelas duas defesas.
Cinco testemunhas foram dispensadas pelos advogados de Monique e Jairinho durante o julgamento.
Desde o início da sessão, em 25 de maio, testemunhas de acusação, peritos, policiais, profissionais de saúde, ex-companheiras de Jairinho e pessoas que conviveram com o casal apresentaram versões e informações que ajudam a reconstruir os últimos meses de vida de Henry Borel.