Irã e EUA firmam acordo; Israel rejeita termos

Netanyahu. Fonte: World Economic Forum via Flickr.
Líderes mundiais reagem com otimismo ao memorando entre Irã e EUA, enquanto ministros israelenses rejeitam os termos do acordo
O Irã e os Estados Unidos anunciaram neste domingo (14) a conclusão da primeira fase de um acordo para encerrar o conflito iniciado em fevereiro. Os dois países
devem enviar delegações a Doha em breve para "reuniões preparatórias" antes da assinatura oficial do documento, prevista para sexta-feira (19), em Genebra, na Suíça. Líderes ao redor do mundo receberam o anúncio com otimismo. O memorando estabelece os princípios de um cessar-fogo e abre caminho para a segunda fase das negociações, que deve se estender por 60 dias. Entre os temas polêmicos a serem abordados nessa nova etapa estão a manutenção do programa nuclear iraniano, a estocagem de urânio altamente enriquecido e a retirada progressiva das sanções americanas.
Ao confirmar o compromisso no domingo, Trump anunciou a reabertura do Estreito de Ormuz sem taxa de passagem e o fim imediato do bloqueio naval americano. Segundo ele, após operações de desmontagem de minas no estreito, o petróleo voltará a circular livremente a partir de sexta, logo após a assinatura do memorando na Suíça. O acordo entre o Irã e os EUA também determina o fim das operações militares de Israel no Líbano a partir desta segunda-feira, outro ponto de impasse. Nas últimas semanas, os ataques continuaram, e, no domingo, Israel realizou um novo bombardeio contra os subúrbios do sul de Beirute. A operação foi criticada pelo governo iraniano e pelo próprio Trump.
O ministro israelense de extrema direita responsável pela Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, criticou o acordo nesta segunda-feira e afirmou que Israel não está vinculado às decisões tomadas entre Irã e EUA. "O acordo de Trump não nos compromete. Não fazemos parte desse acordo. Ele não garante nossa segurança", declarou Ben Gvir em seu canal no Telegram. "Não devemos nos contentar com nada que fique aquém do desmantelamento do Hezbollah. Não devemos nos retirar um único centímetro do território que nossos soldados conquistaram e libertaram das infraestruturas terroristas (no Líbano)", acrescentou o ministro.
O ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, também se manifestou pelo Telegram. "A campanha conjunta (Estados Unidos-Israel) obteve muitos sucessos ao enfraquecer o Irã, e esses resultados não foram em vão", declarou. "Teremos de continuar por conta própria a campanha para derrubar o regime, utilizando meios criativos, e garantir que o Irã nunca adquira armas nucleares", acrescentou, defendendo o reforço da campanha militar no Líbano. "É no Líbano que seremos julgados. É a nossa guerra, são os nossos soldados, e está em jogo a segurança imediata dos nossos habitantes do norte", concluiu.
Apesar das divergências com Israel, as reações de líderes mundiais ao acordo foram amplamente positivas. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, foi um dos primeiros a se manifestar. "Aguardo com expectativa o fim desta guerra de alto custo e a plena restauração da liberdade de navegação no Estreito de Ormuz", escreveu no X, poucas horas após o anúncio. O bloco europeu propôs apoio logístico e diplomático para concluir as negociações. "Com seu peso econômico, conhecimento nuclear e suas relações de longa data com os parceiros do Golfo, a União Europeia está pronta para contribuir para uma solução duradoura", afirmou Kaja Kallas, chefe da diplomacia da UE.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacou que a prioridade é a implementação "rápida e completa" do acordo por todas as partes. "A liberdade de navegação deve ser restabelecida, sem taxas de passagem. Isso é essencial para a estabilidade regional e para a economia mundial", acrescentou, defendendo ainda um "verdadeiro cessar-fogo" no Líbano. "Não pode haver paz no Oriente Médio enquanto o Líbano estiver em chamas." Os ministros das Relações Exteriores da UE também discutem uma possível contribuição da missão naval europeia Aspides para a segurança do Estreito de Ormuz, especialmente nas operações de desmontagem de minas. O chanceler francês Jean-Noël Barrot afirmou que a missão internacional já está "pronta", destacando que vários países organizaram uma operação defensiva que pode ser rapidamente mobilizada para retomar o tráfego marítimo no estreito.
O presidente francês, por sua vez, elogiou o acordo em mensagem publicada no X, ressaltando que o memorando é resultado de um "esforço diplomático coletivo". O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, elogiou Donald Trump e os mediadores e afirmou ser essencial garantir a implementação total do acordo e a abertura permanente do estreito.
O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, alertou para a necessidade de evitar "provocações ou ações" que possam aumentar as tensões antes da assinatura. O Catar reafirmou seu apoio a iniciativas que reforcem a segurança e a estabilidade regionais. A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, disse esperar garantias efetivas de segurança e liberdade de navegação em Ormuz, além da conclusão rápida de um acordo definitivo sobre o programa nuclear iraniano.
O governo australiano insistiu que o Irã deve responder às preocupações sobre seu programa nuclear, enquanto o primeiro-ministro da Nova Zelândia, Christopher Luxon, classificou a reabertura do estreito como um passo importante para estabilizar rotas comerciais e o abastecimento energético. A China também elogiou o acordo e os esforços de mediação do Paquistão.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian, afirmou que Pequim espera que Washington e Teerã assinem o texto "como previsto" e que "todas as partes envolvidas priorizem o caminho da paz, a fim de resolver suas divergências por meio do diálogo e da negociação". O acordo entre o Irã e os EUA representa um avanço diplomático significativo, mas sua implementação ainda enfrenta obstáculos, sobretudo diante da resistência de membros do governo israelense, que rejeitam as condições negociadas e sinalizam intenção de continuar suas operações militares de forma independente.