ONU: crise no Haiti é a mais grave do hemisfério ocidental

Haiti foi tomado pela violência de gangues; hoje, segundo a ONU, um entre cada dois de seus membros são crianças - Foto: Hector Adolfo Quintanar Perez/ZUMA/picture alliance
Secretário-geral da ONU, António Guterres, visitou o Haiti e alertou para a gravidade da crise humanitária e de segurança no país caribenho
O Haiti "enfrenta a crise mais grave do hemisfério ocidental", alertou nesta terça-feira (17/6) o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, durante visita ao país caribenho. Segundo o dirigente, em escala global, a situação no Haiti só não é mais crítica do que no Sudão e nos Territórios Palestinos.
Em coletiva de imprensa com jornalistas, Guterres apontou a violência de gangues que "aterrorizam" a população como a principal causa da crise, que levou 1,5 milhão de pessoas a fugirem para o interior do país e deixou mais da metade dos 11,7 milhões de habitantes dependendo de ajuda humanitária para se alimentar.
"Cada dia é uma luta pela sobrevivência", afirmou o secretário-geral ao falar sobre os haitianos. "Falei com muitos homens, mulheres e crianças que têm apenas uma refeição por dia."
A violência no Haiti produziu 2,3 mil mortos apenas neste ano, de acordo com a ONU. Em 2024, o país liderou o ranking mundial de homicídios, segundo levantamento da ONG Igarapé.
Os dados revelam ainda que mais de 20 mulheres e meninas foram agredidas por dia no primeiro trimestre deste ano, e o número de crianças recrutadas pelas gangues triplicou.
"Agora um em cada dois membros das gangues é uma criança", informou Guterres.
País mais pobre das Américas, o Haiti convive há anos com instabilidade profunda, enquanto gangues poderosas assassinam, estupram, saqueiam e sequestram de forma desenfreada.
"Vamos deixar claro: as gangues têm aterrorizado o Haiti. As instituições foram enfraquecidas", declarou Guterres. "Mas a maior vergonha é a indiferença – a indiferença de um mundo que tem olhado para o outro lado."
O secretário-geral lamentou que o plano de resposta da ONU para o Haiti seja o programa humanitário das Nações Unidas "menos financiado". Até o momento, a entidade conseguiu arrecadar apenas 24% dos 880 milhões de dólares previstos para enfrentar a crise. "O Haiti não pede caridade. O Haiti pede que o mundo cumpra sua palavra. E o Haiti não pode esperar", declarou.
Guterres destacou a Força de Repressão de Gangues (GSF, na sigla em inglês), aprovada pelas Nações Unidas em setembro passado para combater as gangues armadas, com previsão de até 5,5 mil soldados de diferentes países. Segundo ele, a força oferece uma "possibilidade real de fazer recuar a violência e restabelecer a autoridade do Estado".
Até agora, Jamaica, Chade, El Salvador e Guatemala enviaram menos de mil soldados para compor a GSF, que deve começar a operar nas próximas semanas, atuando em conjunto com a polícia nacional e as Forças Armadas do Haiti. "Devo dizer que, ao ver as tropas que participam na Força de Repressão de Gangues, vi chadianos, jamaicanos e vamos ver bengalis. Não vejo os países desenvolvidos contribuírem. Penso que está na hora de os países em desenvolvimento começarem a participar neste tipo de operações", pontuou Guterres.
A crise de segurança no Haiti se agravou no início de 2024, quando gangues desencadearam uma onda de violência que forçou o primeiro-ministro do país, que não havia sido eleito, a renunciar. Ele foi substituído por um conselho presidencial interino, mas, com o fim do mandato do conselho em fevereiro, o poder Executivo passou para o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, que recebeu Guterres em sua chegada ao país.
O Haiti não realiza eleições desde 2016, sobretudo por causa da insegurança. Seu último presidente, Jovenel Moïse, foi assassinado em julho de 2021.
A posição geográfica do Haiti, com extensas fronteiras terrestres e marítimas, além de numerosos portos, estradas precárias e pistas de pouso clandestinas, torna o país especialmente vulnerável ao tráfico de armas, munições e drogas.
O país também depende fortemente de importações, com quase todos os setores da economia ligados a bens vindos do exterior, o que gera um intenso fluxo de mercadorias através de suas fronteiras. Esse cenário oferece aos grupos criminosos amplas oportunidades para o contrabando.
As gangues dominam cadeias de suprimentos, extorquem rotas comerciais e de transporte humanitário e, por serem mais bem armadas que as próprias forças de segurança, conseguem se impor pela força, desestabilizando ainda mais a economia local.