Caso Gritzbach: Júri de PMs acusado de matar delator do PCC começa nesta segunda

Antonio Vinícius Lopes Gritzbach deu primeira e única entrevista em fevereiro de 2024 -Reprodução | Record
Três policiais militares acusados de matar o delator do PCC Gritzbach são julgados em Guarulhos a partir desta segunda-feira (22)
O júri popular dos policiais militares acusados de participar do assassinato de Antônio Vinicius Lopes Gritzbach, delator do Primeiro Comando da Capital (PCC), tem início nesta segunda-feira (22), no Fórum Criminal de Guarulhos, na Grande São Paulo. As sessões começam às 10h e o julgamento tem duração prevista de cinco dias, com expectativa de sentença até sexta-feira (26).
Gritzbach foi morto com dez tiros em novembro de 2024, quando desembarcava no Aeroporto Internacional de Guarulhos. De acordo com a Polícia Civil, a motivação do crime estaria ligada à vingança e a disputas financeiras envolvendo lavagem de dinheiro e criptomoedas da facção.
O papel dos PMs no crime
Segundo a denúncia do Ministério Público do Estado de São Paulo, os três policiais militares tiveram funções distintas na execução de Gritzbach:
Denis Antonio Martins e Ruan Silva Rodrigues são apontados como os autores dos disparos que mataram o delator do PCC.
Fernando Genauro da Silva é indicado como o motorista do veículo utilizado na fuga após o crime.
Com o encerramento das investigações, os três PMs foram pronunciados pela Justiça, etapa que encaminha o processo ao Tribunal do Júri. A decisão indica que há indícios suficientes de autoria e materialidade para que o caso seja analisado pelos jurados. Eles respondem por homicídio qualificado pela morte de Gritzbach e do motorista Celso Araujo Sampaio de Novais, além de duas tentativas de homicídio, já que outras pessoas ficaram feridas no dia do assassinato.
Delação premiada e ordem do crime
Poucos meses antes de ser morto, Gritzbach havia firmado um acordo de delação premiada com o Ministério Público. O processo fornecia informações sobre integrantes da facção, esquemas de lavagem de dinheiro e movimentações financeiras do grupo. Ele também teria indicado policiais militares e civis suspeitos de extorquir criminosos.
As investigações apontam que Emílio Carlos Gongorra, conhecido como "Cigarreira", de 44 anos, teria ordenado o crime com o apoio de Diego Amaral, o "Didi", e de um olheiro chamado "Kauê". Apontado por ligação com o Comando Vermelho, Cigarreira teria contratado os policiais por meio do olheiro.
A Polícia Civil afirmou que cruzamentos de dados e imagens confirmaram a presença dos executores no local do homicídio. Ao todo, 18 PMs tornaram-se réus, sendo que 14 deles seguem presos no Presídio Militar Romão Gomes.
Como funciona o Tribunal do Júri
Durante o julgamento do caso Gritzbach, serão ouvidas 21 testemunhas, distribuídas entre acusação e defesa dos réus. O processo tem início com o sorteio dos jurados, etapa que conta com 25 pessoas elegíveis, das quais sete são sorteadas para compor o Conselho de Sentença. Esse conselho realiza a leitura das peças principais do processo e é responsável por decidir sobre a condenação ou absolvição dos réus. Ao juiz cabe presidir os trabalhos, aplicar a dosimetria da pena em caso de condenação e redigir a sentença.
Após o sorteio, ocorrem as oitivas das testemunhas e, em seguida, o interrogatório dos réus. Na fase de debates, a acusação tem a palavra primeiro — com tempo de fala de uma hora e meia para um réu ou duas horas e meia para dois ou mais réus. A defesa dispõe do mesmo período. Havendo réplica do Ministério Público, os tempos são acrescidos de mais uma hora (um réu) ou duas horas (dois ou mais réus) para cada parte. Por fim, o Conselho de Sentença se reúne em sala secreta para votar os quesitos, e o juiz lê a sentença.
A alegação da defesa dos PMs
Pouco antes do início do júri popular, a defesa dos réus Denis Antônio Martins e Ruan Silva Rodrigues protocolou um parecer técnico contestando a perícia e a confiabilidade das provas genéticas obtidas durante o processo. O documento aponta falhas procedimentais no laudo pericial realizado no veículo VW Gol, utilizado pelos executores no dia do crime. O carro foi encontrado abandonado próximo ao aeroporto, preservado e periciado no local.
A defesa afirmou, por meio de nota, que "o Parecer Técnico comprova, de forma científica e inequívoca, os graves erros cometidos durante a fase de investigação, falhas que resultaram na indevida acusação de pessoas inocentes".
Em resposta, o Ministério Público de São Paulo declarou à CNN Brasil que "a defesa juntou parecer técnico encomendado para questionar, um ano e sete meses após o crime, o resultado imparcial do laudo pericial confeccionado por um órgão oficial, autônomo e independente. Aliás, nenhum dos três réus, presos há mais de um ano, concordou em oferecer material genético para a realização do referido exame, e mesmo assim o resultado é incontroverso: O DNA de Ruan e Denis foi encontrado no veículo e objetos abandonados".
O julgamento de Gritzbach representa um dos casos de maior repercussão envolvendo a atuação do PCC e a suspeita de participação de policiais militares em crimes organizados no estado de São Paulo.