Brasil será taxado pelos EUA em 37,5% e outros países em 12,5%

Governo brasileiro quer ampliar lista de exceções às tarifas dos EUA e discutir setores específicos, como o etanol, nas próximas negociações
Com a nova rodada de tarifas impostas pelos Estados Unidos a 60 países, sob alegação de uso de trabalho forçado, a avaliação do governo federal brasileiro é de que o país continua em posição desfavorável. "Não faz sentido o que fazem com o Brasil", afirmou um assessor que participa das negociações com os americanos. A queixa central é direta: "Cinquenta e nove países terão tarifa de no máximo 12,5%, e o Brasil será taxado em 37,5%", observa a mesma fonte.
A situação decorre de duas frentes de investigação previstas na seção 301 da Lei de Comércio americana. Na primeira, voltada especificamente ao Brasil, a recomendação foi de taxar as exportações brasileiras em 25%, com uma extensa lista de exceções contemplando principalmente alimentos, aeronaves e petróleo. Na segunda frente, de caráter mais amplo e anunciada recentemente, 60 países — incluindo o Brasil — foram atingidos por tarifas que variam entre 10% e 12,5%. O Brasil foi enquadrado nessa segunda categoria, o que, somado à taxação específica, eleva a alíquota total aplicada ao país.
Há um reconhecimento, por parte do governo brasileiro, de que essa nova tarifa ampla de 12,5% substitui a primeira rodada tarifária de Donald Trump, que havia sido derrubada pela Suprema Corte americana. Desde então, Trump adotou um instrumento mais frágil e transitório, a seção 122, que permite a imposição de tarifas globais de 10% durante cinco meses sem necessidade de aprovação do Congresso.
A estratégia americana foi recorrer a uma investigação pela seção 301, muito mais abrangente e duradoura, para garantir a política tarifária de Trump, considerada o núcleo do seu projeto econômico de reindustrializar os Estados Unidos e ampliar a arrecadação federal. No campo diplomático, o governo brasileiro aguarda resposta dos americanos para marcar a próxima reunião formal.
Jamieson Greer, representante comercial americano, está na reunião da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em Paris. O chanceler Mauro Vieira também participa do encontro e se encontrou nos corredores com Greer. Segundo assessores, o americano se aproximou e cumprimentou Vieira, fazendo questão de ressaltar que "há um contato fluido com o Brasil e quer continuar a dialogar".
O ministro respondeu, segundo essa fonte, que há disposição em negociar e que os esforços devem se intensificar diante do cenário de novas tarifas propostas pelos Estados Unidos.
A estratégia definida entre os ministros envolvidos nas negociações será debater setores específicos, com destaque para o etanol. Até 2017, havia um tratamento preferencial ao biocombustível brasileiro, que não pagava imposto nos Estados Unidos. Desde então, o Brasil passou a cobrar 18% de tarifa sobre o etanol importado dos americanos, enquanto os Estados Unidos cobram apenas 2,5% do etanol brasileiro.
O setor é visto como um ponto relevante de negociação bilateral. Internamente, porém, admite-se que a chance maior nas negociações é ampliar a lista de produtos excluídos das tarifas, e não reverter totalmente as sanções aplicadas ao Brasil. O cenário mais realista, portanto, é o de uma expansão das exceções já existentes, e não uma reversão completa das medidas. As negociações devem continuar por pelo menos os próximos 30 dias, segundo fontes do governo.