Surto de Ebola no Congo pode se tornar o pior da história, alerta CDC da África

Profissionais da saúde ajustam equipamentos antes de entrar em local com suspeita de ebola na República Democrática do Congo
Diretor do CDC africano alerta que o surto de Ebola no Congo pode superar todos os anteriores e pede US$ 518 milhões em recursos urgentes
O diretor do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças alertou nesta terça-feira que o surto de Ebola no Congo pode se tornar o pior da história, advertindo que conter a epidemia no futuro poderá custar bilhões de dólares caso as falhas críticas na resposta não sejam corrigidas com urgência.
Mais de 800 casos da rara cepa Bundibugyo, para a qual não existe tratamento ou vacina comprovados, foram registrados no Congo, com 192 mortes confirmadas. A doença, transmitida por fluidos corporais mesmo após a morte da vítima, está se espalhando rapidamente por três províncias do país, de acordo com dados do governo.
"Se não contivermos o surto muito em breve, ele será pior do que o que tivemos na África Ocidental e no leste da RDC", afirmou o diretor-geral do CDC da África, Jean Kaseya, durante uma reunião virtual com chefes de Estado africanos realizada no Burundi.
O alerta de Kaseya ecoa uma projeção semelhante feita pelo CDC dos Estados Unidos e faz referência ao surto que devastou a Guiné, a Libéria e a Serra Leoa entre 2014 e 2016, ceifando mais de 11.000 vidas, além de um surto menos letal registrado no Congo em 2018.
Um representante da Cruz Vermelha também se manifestou nesta terça-feira, afirmando que a epidemia de Ebola no leste da República Democrática do Congo ainda não havia atingido seu pico. "Tememos que possa levar um ano para erradicar essa doença", disse Bruno Michon, gerente de operações da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, em videoconferência com repórteres a partir do leste do Congo.
A resposta ao surto tem sido dificultada pela escassez de centros de tratamento e pela resistência das comunidades locais às medidas rigorosas de higiene. Autoridades de saúde reconheceram que, mais de um mês após a declaração oficial do surto, a verdadeira dimensão do problema ainda é desconhecida.
Michon relatou ainda que as equipes da Cruz Vermelha, responsáveis pelo envolvimento comunitário e pelo enterro seguro e digno das vítimas do Ebola, enfrentaram insultos, ameaças e ataques nos últimos dias.
Kaseya listou uma série de desafios críticos no combate ao Ebola, incluindo a falta de recursos para rastrear os contatos dos mais de 800 casos confirmados. "Estamos acompanhando apenas 12% das pessoas. Esse é um indicador importante para nós. Significa que, até o momento, não sabemos a magnitude desse surto", declarou.
Ele acrescentou ainda que há grande escassez de equipes de sepultamento e falta de equipamentos de proteção individual.
O CDC da África busca US$ 518 milhões para um plano conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS) voltado a conter o surto, alertando que o custo poderá escalar drasticamente caso o apoio não seja concedido a tempo.
"Se não conseguirmos esses recursos nas próximas quatro semanas, não pediremos novamente US$ 500 milhões, mas sim cerca de US$ 1,5 bilhão. Se atrasarmos isso, serão US$ 7,5 bilhões", disse Kaseya. "Se não investirmos hoje com ações claras para combater todas essas vulnerabilidades das quais estamos falando, teremos que lidar com um surto que custaria muito dinheiro."
Na mesma reunião, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, anunciou que aumentará sua contribuição para o combate ao Ebola para US$ 13,5 milhões. A China também sinalizou que fornecerá mais apoio de emergência ao esforço de contenção da doença.