Digimais tem R$ 670 mi bloqueados pela PF

Polícia Federal (PF)
Banco Digimais, de Edir Macedo, é alvo da Operação Miragem e mira crédito consignado após abandonar financiamento automotivo
O Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo desde 2020, teve R$ 670,3 milhões bloqueados nesta manhã como alvo da Operação Miragem da Polícia Federal. A instituição, fundada originalmente como banco das Lojas Renner, passou por uma transformação significativa nos últimos anos, abandonando o financiamento automotivo para se concentrar na concessão de crédito consignado. O Digimais tem uma trajetória que remonta a 2009, quando Macedo, fundador da Iurd (Igreja Universal do Reino de Deus), tornou-se acionista do banco das Lojas Renner.
Em 2013, ele assumiu 49% da instituição e pressionou o BC (Banco Central) por sete anos para obter o controle total. A autorização foi concedida durante a gestão de Roberto Campos Neto no BC (2019-2024), quando o banco foi comprado e rebatizado por Macedo. O balanço financeiro do ano passado revela que o financiamento de veículos usados totalizou R$ 982,3 milhões, representando mais da metade (52%) da carteira de crédito do Digimais. Em seguida, aparecem as concessões de crédito consignado, que somaram 33% (R$ 630,1 milhões) dos aportes.
Segundo reportagem dos colunistas Mariana Barbosa e Júlio Wiziack, do UOL, publicada em abril, os financiamentos do Digimais eram realizados a partir da venda de carros doados por fiéis durante a campanha anual "Fogueira Santa". Nessa ocasião, os fiéis entregam algum tipo de bem como "sacrifício". A prática já foi relatada pela modelo Andressa Urach, que move um processo contra a Iurd. O balanço financeiro com os resultados do ano passado destaca a mudança "estratégica" de atuação da instituição. "O banco consolida o reposicionamento estratégico da sua atuação, direcionado principalmente à concessão de crédito consignado e com a suspensão na originação de financiamento de veículos", destaca o relatório.
O banco garante que a alteração não interfere nos financiamentos automotivos já contratados. O novo plano estratégico do Digimais foi aprovado pelo BC em 2024. O cronograma apresentado pelo conselho de administração revisou a operação do banco e trouxe objetivos a serem alcançados até 2029, com foco em estabelecer novos parâmetros para reduzir a inadimplência e oferecer uma nova cesta de produtos e serviços nos segmentos de atacado e varejo. A instituição afirma ter mais de 145 mil clientes e 150 colaboradores, com presença nos principais estados do Brasil e maior concentração nas regiões Sul e Sudeste.
As emissões de CDB (Certificado de Depósitos Bancários) e LFS (Letras Financeiras Subordinadas) aparecem como a principal fonte de captação de recursos do banco. No campo financeiro, o Digimais registrou prejuízo de R$ 108,7 milhões no primeiro trimestre, resultado que contrasta com o lucro líquido de R$ 31,3 milhões reportado anteriormente em 2025. O resultado de todo o segundo semestre do ano passado representou um prejuízo de R$ 10,8 bilhões. Apesar disso, a instituição relatou no balanço que os resultados eram "consistentes e alinhados à nova diretriz estratégica" do banco. Edir Macedo tentou vender o Digimais por mais de um ano, o que resultou em um acordo com o BTG Pactual. A formalização da venda, no entanto, ainda depende do aval do Fundo Garantidor de Crédito e de autorizações do Banco Central. A colunista Mariana Barbosa, do UOL, explica que caberá ao líder da Igreja Universal cobrir o rombo do banco com recursos próprios, caso a negociação não avance.