Perícia diz que filme sobre Bolsonaro previa retorno de 20% a investidores

Divulgação do filme 'Dark Horse', cinebiografia de Jair Bolsonaro - Imagem: Divulgação
Perícia privada aponta que contratos do filme "Dark Horse" garantiam retorno de 20% aos investidores privados da produção sobre Bolsonaro
Uma perícia privada solicitada pela defesa da dona da produtora Go Up Entertainment apontou que os contratos do filme "Dark Horse" previam um retorno financeiro de R$ 1,20 para cada R$ 1 investido pelos financiadores privados. Isso representa uma remuneração de 20% para quem realizasse aportes na produção cinematográfica sobre a vida pessoal e política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O "Dark Horse" se tornou alvo de polêmicas após a divulgação de um áudio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente e pré-candidato ao Planalto, solicitando apoio econômico de Daniel Vorcaro.
A mesma perícia também constatou que a cinebiografia teve custo de R$ 75 milhões e não contou com recursos públicos para sua realização.
O documento foi apresentado pela defesa da produtora no âmbito da Operação Wi-Fi Livre, conduzida pela Polícia Civil de São Paulo (SP), que investiga supostas fraudes em licitação da Prefeitura de São Paulo com o ICB (Instituto Conhecer Brasil), no valor de R$ 108 milhões. A empresa pertence à Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment.
Vale ressaltar que o inquérito da Operação Wi-Fi Livre não investiga diretamente fatos relacionados ao filme "Dark Horse".
A CNN procurou a assessoria de Karina Ferreira em mais de uma ocasião para obter esclarecimentos sobre a perspectiva de lucro do "Dark Horse" e manifestações sobre as investigações no contexto da Operação Wi-Fi Livre, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.
O documento produzido pelo instituto afirma que os recursos usados pela Go Up foram movimentados por "meios formais, rastreáveis e documentalmente identificáveis". A perícia diz ainda não ter constatado uso de recursos públicos, incentivos fiscais ou verbas da Lei Rouanet na produção.
"Quanto à origem dos recursos financeiros, a perícia constatou que os ingressos vinculados ao projeto possuem origem privada, comprovada por contratos de investimento, extratos bancários, documentos de remessa e demais registros financeiros disponibilizados para análise", alega o documento.
A análise contratada pelos advogados da dona da produtora levou em consideração entradas e saídas financeiras registradas nos extratos bancários da Go Up Entertainment. Foram examinadas despesas relacionadas à produção, equipe técnica, fornecedores, logística, hospedagem, alimentação, segurança, infraestrutura e equipamentos, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
Apesar disso, o instituto não detalha no documento a origem dos recursos, alegando que os contratos analisados têm "natureza confidencial", em razão de cláusulas relacionadas à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
A perícia menciona o contrato firmado em 24 de fevereiro de 2025 entre a produtora e o fundo Havengate para investimento no "Dark Horse". Segundo o documento, o aporte feito pelo fundo soma US$ 13 milhões, equivalente a R$ 75 milhões, valor utilizado para a realização da obra.
O Havengate é suspeito de ter sido utilizado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para custear o "Dark Horse". O fundo é sediado no Texas e consta como administrado por um advogado ligado à defesa de Eduardo Bolsonaro.
A Operação Wi-Fi Livre
Em 1º de junho, a Polícia Civil de São Paulo deflagrou a Operação Wi-Fi Livre para investigar uma possível relação entre a Prefeitura de São Paulo e o ICB (Instituto Conhecer Brasil), de Karina Ferreira da Gama.
A investigação apura suspeitas de fraude em uma licitação da prefeitura no valor de R$ 108 milhões e verifica eventuais irregularidades na implantação, operação e manutenção de 5.000 pontos de acesso à rede pública de Wi-Fi em comunidades do município, no âmbito do programa WiFi Livre SP.
Em nota enviada à CNN anteriormente, a Prefeitura de São Paulo afirmou que colabora com as investigações e que "segue à disposição das autoridades, tendo já prestado informações", acrescentando que o material requisitado já havia sido encaminhado às autoridades.
No dia da operação, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) contestou os detalhes da investigação.
"A matéria diz que foi contratado e pago 5 mil pontos, não procede. Poderia chegar a 5 mil, mas foi contratado e pago 3.200", disse.
A gestão de Ricardo Nunes também nega irregularidades no contrato do programa Wi-Fi Livre Comunidades, alvo da operação.