Mercado aposta em manutenção da Selic em 14,5%

Foto: Banco Central/Reprodução
Mercado dividido aguarda decisão do Copom sobre a Selic, com maioria apostando na manutenção dos juros em 14,50% ao ano
As próximas horas serão de tensão crescente em torno da decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) sobre a taxa básica de juros (Selic), ao término da reunião desta quarta-feira (17). Embora o mercado esteja "dividido" quanto ao posicionamento do colegiado, a tendência mais forte das últimas semanas aponta para a manutenção da taxa no patamar atual de 14,50% ao ano.
Uma ala minoritária ainda "aposta" em uma redução de 0,25 ponto percentual (p.p.). Caso a manutenção se confirme, a perspectiva de corte dos juros básicos fica automaticamente adiada "sine die", sem que esteja inteiramente descartado o início de um novo ciclo de alta no curto prazo. Isso porque a última projeção do boletim Focus — consulta do Banco Central às 100 maiores instituições financeiras do país — aponta um IPCA de 5,11% para este ano, representando a 13ª alta consecutiva e estourando o teto da meta de inflação fixada em 4,5% pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Diversos fatores reforçam essa possibilidade, tanto externos quanto internos. No campo externo, destacam-se os reflexos geopolíticos do conflito no Oriente Médio sobre a economia global, como a escalada de aperto monetário pelos bancos centrais a reboque da alta do petróleo e do gás. No campo interno, pesa a resiliência da inflação, diretamente associada ao aprofundamento do desajuste fiscal do governo, em que despesas superam receitas, além do impacto ainda imprevisível do super El Niño sobre o agronegócio da região. A sombra da carestia não é exclusivamente brasileira.
Surge também a chamada "inflação importada", fenômeno em que os preços sobem globalmente e o frete internacional acompanha esse movimento, repassando esses custos aos produtos adquiridos do exterior. Dessa forma, a inflação global pode obrigar o Banco Central a rever a trajetória de flexibilização monetária, ou seja, a queda dos juros.
Sobre a perspectiva monetária para a economia brasileira, o economista-chefe da Blue3 Investimentos, Roberto Simioni, traçou dois cenários básicos. O primeiro se baseia na possibilidade de a crise energética durar não mais de dois trimestres, o que permitiria ao Banco Central manter a Selic no patamar atual até o final do ano. O segundo prevê que a pressão inflacionária persistiria por mais de três trimestres, o que demandaria uma "correção mais enérgica da taxa básica".
No front externo, Simioni percebe uma mudança estrutural por parte dos bancos centrais de diversos países diante da persistência das pressões inflacionárias. "Observa-se também que bancos centrais manifestam sinais de possíveis reversões de sua política monetária", afirma o economista, citando os casos do Banco da Coreia do Sul e do Banco do Japão.
Na avaliação de Simioni, o Banco Central Europeu (BCE), o Banco da Inglaterra (BoE), o Federal Reserve (Fed) e o próprio Banco Central do Brasil terão diante de si o mesmo desafio no médio prazo. "Fica a expectativa de como tais bancos centrais agirão frente aos desafios inflacionários: se promoverão ajustes mais proativos em termos de magnitude ou se preferirão passos menores".
Caso se confirme a previsão minoritária de um corte de 0,25 p.p., a Selic baixaria de 14,50% para 14,25% ao ano, seguida da interrupção do ciclo de reduções da taxa, devido às pressões inflacionárias internas e externas e ao elevado grau de incerteza no exterior. Com um "afrouxamento" mais curto, o indicador chegaria ao final de 2026 no patamar de 13,50% ao ano.